os moliceiros têm vela (248)


“moliceiro”

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o ti abílio e o cunhado no canal de aveiro

queria escrever uma palavra
uma imagem
algo que ficasse para além de mim
do efémero hoje
do eterno ontem
do provável amanhã
que falasse de um povo
duma terra dum sentir

do ser

enchi folhas e folhas
de palavras de sonhos
esboços rascunhos

por mais que procurasse
apenas uma me encheu
de tudo e de todos
de tempo e de o não haver

a palavra a imagem o homem
sobrepunham-se numa só linha
em letras breves

“moliceiro”

(regata da ria; 2013)

 

a arte solheira do largar ao alar


o alberto trabalhito (trovão) e o necas

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a solheira é uma rede de emalhar de 3 panos justapostos – 2 albitanas e um miúdo – ou rede de tresmalho.

o aparelho da solheira é constituído por um determinado número de redes – andares/rações. as malhagens e comprimento total estão definidas no “Regulamento por arte de emalhar”.

de oito em oito andares é lançada uma bóia para marcar a posição e servir assim de referência a outras bateiras ao mesmo tempo que nos dá o alinhamento coma bóia inicial.

os andares têm a correr no cimo um tralho de bóias e no fundo um tralho de chumbo – este de acordo com os modelos mais modernos é constituído por uma corda por dentro da qual corre o próprio chumbo.

assim a rede assenta no fundo e nela emalham os peixes – chocos, linguados e, por vezes sarguetas – dos quais os dois primeiros são os verdadeiros objectos de captura

este vídeo, dos primeiro que fiz, data do de 2010, contou a colaboração do meu amigo alberto trabalhito (trovão) e o necas (já falecido) para um lanço breve e perto do porto de abrigo.

por estranho que pareça queria dedicar este vídeo aos pescadores da torreira e ao necas que , mais que um cão, era um amigo de trovão e da linda.

além de guardar as redes e o barco ainda ia chamar um dos donos quando era preciso, quantas vezes o trovão dizia ao neca “vai chamar a linda” e o mesmo para a linda “vai chamar o trovão” …. e o necas lá ia.

se no filme o ouvimos ladrar é porque vão a passar outros barcos e ele como bom cão de guarda vai avisando que ali é a casa dos donos.

obrigado trovão por me teres levado contigo, obrigado alfredo miranda pela documentação sobre as artes de pesca.

espero ainda publicar mais alguns vídeos só sobre a alagem, com outros pescadores noutras bateiras.

quero que vivam a ria com os sons dela e as gentes que dela tiram sustento

(torreira; 2010)

mãos de mar (12)


utensílios primordiais

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utensílios primordiais
a navalha e o bordão
no repartir do trabalho
e do seu fruto

as mãos são
as mãos de tantos quantos
para além delas
habitam o tempo
gravado no bordão

escrita sábia esta
sem palavras
escultura elementar
em louvor dos dias

parto e já não sou tão pouco
sou mais um
vejo para além do que vejo
cresci

ganhei o mar que pressinto
para ser barco homem memória

(torreira)

postais da ria (199)


do viver

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o meu amigo ti zé formigo

há os que usam da memória
para serem o que já foram
ilusão de

eu uso a lucidez que me resta
para viver os dias
sem ilusões

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o prazer da ria é ser nela todo

(torreira; s. paio; 2014)

o ti zé formigo ao leme da sua bateira, no permanente resistir às adversidades da vida

os moliceiros têm vela (247)


“o moliceiro e o fotógrafo”

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o carlos lopes franco e o ti abílio

4 de setembro de 2016, dia maior das festas do s. paio, na torreira: DIA DA REGATA DOS MOLICEIROS.

o maior desejo de qualquer amante da fotografia é participar na regata e fotografá-la de dentro de um barco, mas o regulamento só deixa que a tripulação seja no máximo de 3 camaradas e como são sempre os necessários, este desejo não passa disso.

no s. paio de 2016 reparei que o ti abílio parecia ir navegar sozinho e eu e o carlos lopes franco, que tinha vindo de lisboa para fotografar a regata …… o vento não era muito e perguntei ao ti abílio: quer dois camaradas que não vão fazer nada? a resposta foi imediata: saltem para dentro.

no breve registo que aqui fica, pode ver-se a energia de um homem com 80 anos de idade ao leme de um moliceiro e como o faz navegar sem ajuda de mais ninguém.

para os que gostam da brejeirice de alguns painéis de moliceiros fica também um apontamento de um momento de brejeirice a bordo do barco, um momento “à ti abílio”. é preciso conhecê-lo.

não é fácil repetir registos como este, não será perfeito, mas foi o possível tendo em conta o saber do operador de câmara: eu.

não houve qualquer acrescento de música de fundo porque quis que o registo fosse o mais fiel possível ao vivido. por precaução a câmara estava protegida contra qualquer projecção de água, pelo que a captação de som é algo deficiente. melhorei-a como pude mas sem inventar.

e….. ainda há mais. Cada tripulante tinhea direito a uma medalha de participação, nem eu nem o carlos algumas vez pensámos nisso, mas o ti abílio pensou e sai-se com esta:

AS MEDALHAS SÃO PARA O CRAVO, PARA O SR. CARLOS E PARA O OUTRO AMIGO DE LISBOA (o josé silveira que tinha conhecido o ti abílio e participara na regata dentro do barco do ti zé rebeço, com o o ti manel antão)

OBRIGADO POR TUDO TI ABÍLIO, FORAM MOMENTOS QUE NUNCA ESQUECEREMOS E QUE, QUEM VIR ESTAS IMAGENS, TAMBÉM NÃO CONSEGUIRÁ ESQUECER.

(as fotos que constam do registo são da autoria de carlos lopes franco)

os moliceiros têm vela (246)


em louvor do moliceiro

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o mestre zé rito e o avelino

fazem os homens
o barco que os faz
e no fazerem-se
são mais que eles

queria dizer-te
que o teu tamanho
como escreveu pessoa
é o tamanho do teu sonho

e tu
oh homem pequeno
de trazer por casa
se não fores barco
não serás sonho
nem terás tamanho

tenham piedade de ti
que eu não

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ilusão o serem os homens menores que o barco, porque iguais

(torreira; agosto de 2016)

postais da ria (198)


notas de um retirante

o associativismo dos pescadores no concelho da murtosa

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o fernando bastos a cirandar, na bateira a esposa, vivelinda bastos

no livro “Breve História do Concelho da Murtosa” da autoria de Marco Pereira, houve o cuidado de fazer o levantamento do movimento associativo do concelho, listando por tipologia as diferentes associações existentes ou que tiveram existência. no que respeita a associações de natureza económica, não encontramos nenhuma referente ao sector das pescas.

de acordo com documentação que enviei ao autor foi, no entanto, fundada em 1921 a “A Associação de Classe dos Marítimos da Murtosa”, de que, entre outros, foi sócio fundador o meu bisavô Domingos José Cravo.

segundo documento da “Secção Administrativa e Policial de Estarreja” de 1937, informa-se o Governo Civil de Aveiro “que não há elementos que possam esclarecer como e quando acabaram as Associações dos “Marítimos da Murtosa” e …..”.

ou seja, foi sol de pouca dura.

seria interessante, em estudos futuros abordar o associativismo dos pescadores do concelho.

dou como exemplo o que se passa na torreira, onde se concentra a maior comunidade piscatória : os pescadores são representados, na sua maioria, por uma associação com sede em viana do castelo e por uma outra associação com sede em aveiro. a concessão da docapesca da torreira, foi ganha pela associação de aveiro.

se considerarmos que os pescadores descontam 1% para a associação que os representa e mais 1% para o concessionário da docapesca, talvez cheguemos a números interessantes.

tentei sabê-los mas …. até hoje nada.

porque é que o associativismo local não vinga entre os pescadores do concelho e vão buscá-lo fora?

mais que uma pergunta, fica um desafio para quem se dedica ao estudo das comunidades piscatórias.
(cirandar berbigão)