construção de um moliceiro (4)


17 de agosto

hoje começou o fecho do barco.

o mestre zé rito afeiçoou a segunda tábua de costado de bombordo e procedeu-se à sua fixação.

do fazer de cavilhas de madeira, que se vêem ao longo da tábua, até aos ângulos de corte da tábua e ao molde para o fazer, muitas foram as pequenas tarefas e alguns os conceitos novos que aprendi.

para a colocação da tábua e ajuda à sua fixação de novo, como sempre, apareceram amigos prontos a ajudar.

ao fixar neste registo o barco, já na sua forma final, e um homem de costas – que eu sei que é o avelino – quero simbolizar TODOS os que, de algum modo, têm estado presentes durante a construção do moliceiro e, com todo o empenho possível, têm dado o seu contributo para a construção.

a cada dia que passa, mais vejo esta construção como a GRANDE CELEBRAÇÃO COLECTIVA E ESPONTÂNEA DA RIA.

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(torreira; 17 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (3)


16 de agosto

depois das tarefas que envolveram grande número de amigos, entramos na fase dos pormenores.

nos últimos dias o mestre zé rito tem vindo a trabalhar no afinamento de pequenos detalhes, colocação das ponteiras da bica da proa, pequenas peças na bica da ré, emassar e polir madeiras.

hoje ficou concluída a colocação do traste e ficará ainda colocada a peça que aqui registo: o vertente (bertente).

colocado do lado da proa da quinta caverna, começa nele o castelo da proa e nele termina o coberto do castelo da proa.

juntamente com o traste são peças de colocação transversal que dão rigidez à estrutura.

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postais da ria (184)


o cigano

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onde antes areia moliço
peixe luz alimento
nada mais que um charco
rodeado de lama

lama na ria e um cemitério
de bateiras
à espera da despedida
dos donos

a lama invade tudo

chapinha-se na lama
e dá-se-lhe bandeira doirada
na ilusão de pescar incautos

reconheço o fim do tempo
na maré vazia
a que nem os homens resistem

partem os que podem
ficam os que já não
ou porque também

o cigano desmonta a tenda
lava os pés e as mãos
na pouca água que resta
purifica-se

o cigano não muda a terra
muda de terra
é esse o seu destino

sonhar sonhar sonhar
nada é em vão

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(torreira; porto de abrigo; 2016)

postais da ria (183)


o meu país arde

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9 horas da manhã e era noite

o meu país arde
de abandono
e não há lágrimas
que apaguem
erros de anos

o meu país arde
de ter sido um dia
à beira mar plantado
da beira mar arrancados
os filhos mal amados

o meu país arde
o meu país arderá
até nada mais restar
que a memória do verde
e de terem havido árvores
que se tornaram naus e barcos

o meu país arde
como arderam os olhos
dos que partiram

quem se lembrou deles então?

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haverá beleza no inferno?

(torreira; 8 de agosto de 2016)

crónicas da xávega (179)


meditação breve

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carrega-se o saco para dar a volta ao barco pela ré

como areia por entre as malhas
dos dedos estes dias

tece-se a rede com fios de raiva
cansaço desespero
por vezes

caminha-se e é o mar
sempre o mar
que dá destino aos passos
não os homens

teima-se
teima-se muito
mas o carnaval é o ano inteiro
e não há máscara
que não caia ao anoitecer

acendo um cigarro
que não fumo
abro uma cerveja
que não bebo
e faço de conta que existo
para me rir de mim

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não há máquinas para estas tarefas: há homens

(torreira; 2010)

a construção de um moliceiro (2)


12 de agosto (conclusão)
serve este registo para mostrar outro acessório necessário à colocação das dragas e dos bordos: a gata.

à esquerda vê-se um grampo a prender a draga ao bordo exterior, à direita “a gata” engata por debaixo da draga que, alavancada por uma vara de madeira pressionada por 3 homens, é elevada à altura pretendida.

depois é apertada pelo grampo e finalmente fixada ao bordo por meio de ferragem adequada.

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12 de agosto (cont)

colocada a draga dentro do casco, começou por ser fixada à ré, com o grampo que se vê em primeiro plano.

depois é ajustada à proa e elevada com a ajuda de uma alavanca improvisada.

por ser uma tarefa de alguma complexidade e interesse, irei documentá-la um pouco melhor.

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12 de agosto

a draga de bombordo está pronta a ser colocada no interior do casco.

embora o trabalho do dia se tenha concluído com a fixação da draga, pretendo com este registo mostrar o espírito que habita as gentes da beira ria quando se constrói um moliceiro: solidariedade e companheirismo.

assim fosse sempre e em tudo

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a união faz a força

11 de agosto

a draga é “afeiçoada” à curvatura do bordo, com a ajuda de grampos que fazem fixe entre o exterior do bordo e o exterior da draga. assim ficam os dois perfeitamente paralelos.

neste registo vêem-se vários grampos já fixados e o setenove a preparar mais um que colocará com a ajuda do mestre zé rito ou, ao contrário, que o mestre zé rito colocará com a ajuda dele.

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10 de agosto

as dragas são peças análogas aos bordos, sujeitas ao mesmo tratamento, e que correm por dentro das cavernas e braços, paralelas aos bordos.

hoje o mestre zé rito, sempre com a ajuda e a presença do avelino, afeiçoou uma draga, que tal como os bordos esteve mais de 3 meses mergulhada na ria.

sente-se no ar o cheiro a lodo e o aroma da madeira é diverso.

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o mestre zé rito serra a madeira, enquanto o avelino vai varrendo a draga para manter visível a linha de corte

construção de um moliceiro (1)


9 de agosto

depois de ter passado 3 a 6 meses mergulhado na água salgada da ria, foi dada ao bordo a forma definitiva, de acordo com o molde do mestre, e aplicado ao costado.

hoje foi o bordo de estibordo.

na hora da aplicação parece que os amigos se multiplicaram e foram muitos os que apareceram para ajudar.

do nuno setenove ao ti alfredo, nos extremos do registo, houve gente da terra, de fora, emigrantes ou simples curiosos, que deram a mão.

a celebração do moliceiro, enquanto objecto de solidariedade e de amor pela terra, começa na sua construção.

(torreira; 9 de agosto de 2016)

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8 de agosto

depois de marcado no costado o posicionamento do bordo, de acordo com o molde de bordos, faz-se a aplicação do bordo.

pela dimensão, pela espessura, pelo afeiçoamento que é necessário fazer, é uma tarefa delicada e que, ao mesmo tempo, exige muita força e saber.

qualquer procedimentos menos adequado pode levar ao quebrar do bordo e a um prejuízo enorme.

antes de começar a aplicação do bordo, o mestre zé rito, parou por uns momentos e disse:

” como dizia o mestre henrique lavoura, antes de aplicar um bordo é preciso descansar um bocado”.

QUER É CALMA

todos os presentes ajudaram, até um turista francês que começou por fotografar, acabou por dar a sua mão – é o segundo na fila a contar da direita.

(torreira, 8 de agosto de 2016)

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6 de agosto
depois de feitas as marcações na tábua do casco, o mestre zé rito aplica sobre ela o molde dos “bordos”, seguindo a parte superior do molde é feita a marcação do bordo.

em seguida é feito o corte da tábua para aplicação dos bordos.

(torreira; 6 de agosto de 2016)

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5 de agosto

o folhear da proa

hoje para além do começar da “coxia”, continuou-se o folheamento do costado.

neste registo vemos o mestre zé rito a fixar a tábua de costado, apertada pelos grampos e pressionada por mãos amigas: havia-as da torreira, de estarreja … de amigos.

a construção de um moliceiro é uma celebração.

(torreira; 5 de agosto de 2016)

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3 de agosto (cont.)

apertando os grampos, o mestre zé rito força o arqueamento das tábuas que formam os costados do barco – é o folheamento de que já falei.

por cima desta serão colocados os “bordos”.

(torreira; 3 de agosto de 2016)

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postais da ria (182)


da amargura

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o manuel fonseca (manuel tala) a cirandar berbigão

quando o conhecido
se torna desconhecido
é tempo de ser outro

os navios partem
sem saber de regresso
semeando o mar
de saudades amargas

fecham-se portas
outrora escancaradas
e não há janelas
por onde luz venha

é tempo de ser outro

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o colorido dos dias é agora outro

(torreira; julho; 2016)

os moliceiros têm vela (227)


NÃO DEIXEM MORRER OS MOLICEIROS!

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momentos finais da regata da ria 2016.

os 3 primeiros estão definidos: em primeiro lugar o “Zé Rito”, em segundo o “A. Rendeiro” – por dentro – e em terceiro o “Marco Silva” – por fora.

até ao fim sempre juntos e com pouca diferença.

houve regata, sim, houve competição, sim. os moliceiros mostraram o que valem e como podem dar vida à ria.

NÃO DEIXEM MORRER OS MOLICEIROS!

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(regata da ria 2016)

construção de um moliceiro


3 de agosto

depois de fixada a bica da proa, continua-se o “folheamento” dos costados do moliceiro.

neste registo o ti zé rebeço, de passagem pelo estaleiro, ajuda a dobrar uma tábua afeiçoando-a ao costado, enquanto o mestre zé rito aperta a madeira com os “grampos”.

em breve o barco estará fechado.

uma coisa é verdade e constante na torreira: a construção de um moliceiro é ponto de encontro de todos, não falando das visitas.

o mestre não tem aprendizes: tem amigos

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2 de agosto

depois de colocadas as cavernas e os braços e com uma cinta de costado. faltava a colocação da bica da proa para que o moliceiro tivesse a sua forma final.

o mestre zé rito, ajudado pelo amigo nuno cunha (setenove) fixa a bica da proa.

a beleza do moliceiro enriquece-se a cada dia

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30 de julho

o molde

os mestres contrutores navais passavam aos aprendizes o seu saber não só pelo ensinamento das boas práticas, mas também pelos modelos de que serviam para a construção dos barcos.

os paus de pontos e os moldes, são dois exemplos.

neste registo o mestre zé rito, usa o molde das cavernas e braços – que lhe foi oferecido pelo mestre joaquim raimundo e posteriormente adaptado a seu gosto – para recortar mais um braço de um pedaço de pinheiro manso

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30 de julho

continuação da feitura e montagem dos braços. neste registo o “afeiçoar” de um braço

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29 de julho

o mestre zé rito a fazer “braços” e vê-se já o barco com tábuas de costado

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26 de julho

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18 de julho

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