o drama

ínfimos somos
o tempo não existe
tu sim
a distância não existe
tu sim
esse o drama

tão pouco somos
(torreira; porto de abrigo)
o drama

ínfimos somos
o tempo não existe
tu sim
a distância não existe
tu sim
esse o drama

tão pouco somos
(torreira; porto de abrigo)
partir

sentir com os olhos
ser o olhar
nada mais que isso
depois
como sempre
partir
que futuro aqui?

(torreira; regata s. paio; 2014)
para o meu amigo joão rodinhas

bem vindo às terras do sol
onde o pão parco
nascer na torreira é ser mestre
de todos os mares
senhor de saberes herdados
caminhos por fazer
parte-se para regressar
à ria ao sol e ao mar
até quando joão?

(torreira; companha do marco; 2009)
joão manuel brandão (3)

sofridas letras
esculpidas na carne
escritas no rosto
saber os caminhos
do suor ao oiro
da dor à fortuna
é uma outra ria
onde é sempre
maré vazia
cheia de lamas
apodrecidas
depositadas
nas margens
este é o postal
que não encontrarás
no sítio habitual

(torreira; cabrita alta; 2012)
resistir

o ti américo na manga do reçoeiro, no alador
a manga no alador
corre
o fim do lanço quase
os anos pesam
mais a rede
mais a necessidade
a língua espreita
o esforço
as ganas de continuar
um homem não é
uma máquina
resiste resiste resiste
está vivo muito

conhaque é conhaque, serviço é serviço
(torreira; companha do marco; 2015)
joão manuel brandão (2)

o rosto
a arte
a ria
o pão
sofrido

(torreira; cabrita ata;2012)
moliceiro

mais belo não há
que dentro dele vibra
um coração gentio
que mesmo de longe
enche as velas
só para ser de novo
assim o sentissem
os que cegos
nada mais vêem
senão tachos e euros

(torreira; regata da ria; 2010)

não sei de regressos
sei de chegadas
de partidas
esperar é destino
de quem em terra
chegam os outros
os que partiram
todo o homem
é uma viagem
chega para partir

(torreira; companha do marco; 2015)
joão manuel brandão (1)

das muitas artes de pesca que ainda se praticam na ria e que pude acompanhar de perto, a arte da “cabrita alta”, para apanhar bivalves é, sem dúvida, a mais dura.
com o joão manuel brandão e o joão manuel dias, em 2012, pude ver de perto o sofrimento que provoca no mariscador.
as fotos que vou publicar são do joão manuel brandão e mostram bem o esforço que se lhe espelha no rosto.
coluna, joelhos, braços, pernas, todo o corpo é uma máquina que se desgasta nesta arte duríssima e que, mais dia menos dia, os leva ao bloco operatório ou à fisioterapia.
parca paga, enorme o desgaste, maior a despesa.

(ria de aveiro; torreira; cabrita alta; 2012)

o momento é agora
vive-o

(torreira; regata do s. paio; 2015)