crónicas da xávega (156)


0 ahcravo_DSC_2653_largar m fatima 2012 a bw

e vai ao mar

enquanto o novo M. Fátima espera que as burocracias se completem para ir ao mar, aqui fica uma recordação de 2012, do barco agora em descanso.

brava gente esta, a dos homens da xávega. saibam respeitá-los e dar-lhes condições de trabalho.

0 ahcravo_DSC_2653_largar m fatima 2012 a

momentos de mar

(torreira; companha do marco; 2012)

postais da ria (157)


a magia da ria

0 ahcravo_DSC_9254 bw
há imagens que nos pregam
ao chão
que nos prendem os olhos

as cores as gentes o céu
o estar ali
deslumbrado com tanto

a ria por vezes é pura magia
como senti no momento em que
não fui capaz de para de disparar
enquanto que pensava

por mais que faça
nunca nada será mais belo
que o estar aqui

assim sintas a ria um dia

0 ahcravo_DSC_9254

o henrique e o padas safam as redes da solheira, o léo, na bateira do pai assiste

(torreira; o safar das redes)

M. FÁTIMA


no dia 26 de janeiro de 2016, começou a ser construído, na torreira, o barco de mar M. FÁTIMA. participaram na construção o arrais marco silva, albina amador, jorge carriço e ricardo silva. as pinturas de decoração foram obra do pintor josé oliveira.
 
o registo que aqui fica, uma breve entrevista com marco silva e algumas imagens do barco acabado, foi realizado no dia 22 de abril de 2016.
 
de admirar a capacidade de trabalho e a diversidade de artes em que o arrais marco silva intervém: arrais de mar, mestre de redes, mecânico e construtor naval – já lá vão uma bateira mercantel, um moliceiro (no ano passado) e agora um barco de mar.
 
como pode ser visto no registo é o primeiro barco com 2 motores, segurança que marco silva sempre pretendeu ter, bem como as dimensões e características do barco, de que dá nota na breve entrevista que lhe fiz.
 
seja este trabalho, uma homenagem a um amigo e grande homem do mar, da ria e da nossa xávega, chamado MARCO SILVA
 

postais da ria (156)


abril vinte e cinco e os cravos

0 ahcravo_ DSC_7029 bw
dos cravos não consta
que espinhos
não os temas por isso

não tos vi hoje na lapela
e admiro-te
na sinceridade de os não
teres posto

aí onde estás lustroso
sorridente
aos cravos o deves

ou será que aí estarias
mesmo sem eles
sem democracia?

nunca se sabe

0 ahcravo_DSC_7029

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (205)


abril vinte e quatro

0 ahcravo_DSC_4231 bw

abril vinte e quatro
mil nove setenta e quatro
não sabíamos de amanhã
do amanhã que hoje
sabemos que ia ser

recordo os mortos nas
guerras criminosas no
silêncio das prisões às
mãos sádicas de não homens
que vimos condecorados
para nossa vergonha
depois de

abril vinte e cinco
quarenta e dois anos depois
é amanhã e podemos sair
à rua e por sermos mais de dois
não seremos presos

0 ahcravo_DSC_4231

(torreira; regata do s. paio; 2012)

crónicas da xávega (154)


dar voz a quem

0 ahcravo_DSC_4527 bw

saco seco, sacudido, para cima da zorra

a fotografia aos fotógrafos
a poesia aos poetas
nada mais vos quero deixar
que a memória das gentes
as palavras do que sinto
sou ou tento ser

tenho a noção
do quão pouco valho
mas não seja por isso
que nada faça

como esta gente carrega
as redes que ao mar se hão-de fazer
também eu dou o que tenho
sabendo que mesmo pouco
falta fará que seja feito

leio vejo escuto
com nada fico
se tenho dou reparto
migalhas sejam
como estas

pão à mesa de quem
não tem voz

0 ahcravo_DSC_4527

a companha são todos

(torreira; companha do marco; 2015)

postais da ria (155)


estar vivo é perigoso

0 ahcravo_DSC_5549 bw

olhar para dentro de tudo

só te saberás
se tentares ser mais

o mais desculpas serão
para seres o de sempre

o do sofá da sala
do pão certo à hora certa
sobrevivente de ti

estou cansado até
ao mais fundo de mim
doo-me de tanto

estar vivo é perigoso

0 ahcravo_DSC_5549

fotografar é sentir com os olhos

(torreira; s. paio; 2014)

postais da ria (154)


rapar a ria

0 ahcravo_DSC_4741 bw

com um balde e um pequeno ancinho, na maré vazia, nos cabeços em seco ou com pouca água a cobri-los, apanhava-se a amêijoa japónica, o berbigão.

ao longe, nada mais vês que um casal que parece passear por sobre as águas, povoando o silêncio com as suas vozes, que não ouves mas imaginas

uma paisagem belíssima, um lugar onde o silêncio se ouve e os olhos se limpam da sujidade urbana.

ajoelham-se, pousam o balde, pegam no ancinho e começam a “rapar” a lama da ria. dirias como se batatas, mas aqui, na lama, são amêijoas que colhem.

horas seguidas, tantas quantas a maré permita, que o corpo, esse terá de aguentar.

sobreviver aqui é sobre-utilizar o corpo, desgastá-lo, moê-lo, consumi-lo.

e tudo em silêncio vai pingando para os bolsos dos mesmos, dos que não estão na fotografia.

a japónica deu de comer a muita gente durante dois anos depois, num inverno mais longo e chuvoso, as águas adocicaram e morreu. dela pouco ou nada resta.

os homens e as mulheres, continuam a caminhar e a rapar a ria, são menos, a colheita é pobre, vivem do que a ria ainda dá.

0 ahcravo_DSC_4741

(torreira; 2012)

crónicas da xávega (152)


0 ahcravo_DSC_6656 bw

o stalone, o horácio, o calão, a mão de de barca, a manga

ao fundo virá o saco

no fundo do saco, talvez peixe

se peixe houver, que peixe será

se for do vendável, a como o comprarão, se é que o comprarão

é peixe fresco, é peixe do mar, é suor desta gente

quem o come, come ouro, mas alguns ainda o querem dado. estão de férias e esquecem-se que só o estão, porque lhes pagaram o ano inteiro.

quando aqui chegares traz mais
que uma máquina
um fato de banho
um desejo de sol e mar

traz o entendimento
que esse
nunca o deixes ir de férias

0 ahcravo_DSC_6656

(torreira; companha do marco; 2013)