eis a mulher da ria
eis a mulher da ria
a mãe a camarada
seja hoje dela o dia
canto nela o serem
muitas as que
ombro com ombro
braço com braço
nas bateiras
são camaradas
do seu homem

(torreira; 2009)
eis a mulher da ria
eis a mulher da ria
a mãe a camarada
seja hoje dela o dia
canto nela o serem
muitas as que
ombro com ombro
braço com braço
nas bateiras
são camaradas
do seu homem

(torreira; 2009)
vejo sinto sou
talvez não fosse uma maçã
pode até nem ter havido paraíso
nem adão nem eva nem deus
cada um acredita no que quer
mas há a moeda
o fmi o bce o dólar o euro
o bitcoin pasme-se
há o homem e o fascínio
das moedas todas
lhe poderem dar tudo
talvez não exista céu nem anjos
nem inferno nem diabo
mas existe a ganância a cegueira
a lágrima a mágoa a alegria
a revolta a aceitação a ignorância
a fome o desperdício o luxo
existe ainda a propriedade
e os homens impróprios
isto não é crença é facto
e sei que existo eu
a questionar tudo isto
porque vejo sinto sou

carregar o saco na zorra
(torreira; 2012)
é
é no tempo
que o homem
se desnuda
sê paciente

tiago capelo
(torreira; cirandar; 2016)
o livro
reinventar o tempo
por dentro
os amigos ainda são
encho-me de mim
e sou de novo
por ser neles eu
um sorriso um olhar
um abraço
empresto-lhes vozes
inventadas
palavras onde moram
é de memórias
que o livro se faz

(ti miguel bitaolra;torreira; 2012)
quando

quando amanhã
for ontem
quando tu tiveres
sido
sem nada seres
nada restará de ti
a não ser o nada
que foste

(torreira; s. paio; 2017)
a pancada

será forte a pancada
de mar
respeito os homens
no barco
digo-te que maior
a dor
se em vez de mar for
de homem
a pancada

(torreira; 2013)
conheço
conheço muitos
ladrões do presente
assassinos de futuros
mas
ainda não encontrei
ladrões de passados
talvez por isso
ainda tenha o meu

(torreira; safar das redes; 2013)
fosse eu árvore

olho para o chão
apanho uma folha
uma árvore pariu
um poema

(torreira; regata da ria; 2009)

porque não sou deus
(deus escreve direito
por linhas tortas
diz o povo)
porque não sou
deus
tento sempre
escrever a direito
e sai-me quase
tudo torto

(torreira; 2012)
como se
como se dança
os corpos
como se música
os sons
como se agora
o antes
como se aqui
o longe
nada mais falso
que o óbvio

safar redes é trabalho de casal
(torreira; safar redes; 2013)