fragmentos de tempo


antes de

 

ainda não ouvi

a voz da sombra

clamando silêncio

 

ainda não vi

a luz dos cegos

na ponta dos dedos

nas asas das árvores

um pássaro ferido

voar para o céu

a terra escorrer sangue

de tão ferida

 

ainda não vi

o coração da pedra

sorrir à criança triste

 

tudo isto porém sinto

como a areia a onda

antes de

aviso


perigoso fugitivo da cadeia

aviso da polícia distrital a todos os elementos do sexo feminino:

hoje dia 4 de dezembro

acaba de fugir da cadeia regional dos 50
mais um sexygenário
cuidem-se

balanço 60


eu ao colo da minha avó benedita

 

há quem nasça continente

eu nasci arquipélago

 

artes e ofícios muitos

de tudo um pouco

em tudo quase nada

o mesmo

agarrar pontas e atá-las

depois mais um nó

novas pontas sempre

em busca de outro nó

a desfazer também

 

sol e mar

inquietações de barco ancorado

angústias de infinito

e um infinito de angústias

 

uma praia

onde conchas ouvem peixes

murmúrios de ondas

troncos naufragados

cordas redes fios

vómitos de mar

 

palavras

em busca de um sentido

sentindo que só a busca é

caminho

 

falei-me

que as palavras


tão leve e tão pesado, o tempo

 

que as palavras
te cheguem inteiras
sem pedras por dentro
nem lágrimas de terem sido

sejam o sorriso nas manhãs
em que eu já não esteja
e te falem de mim
do amor, do mar
da alegria que é estar vivo

que as palavras
te cheguem inteiras
como eu sempre

é tarde para


ainda

 

vivo assim

sentado a andar

à deriva neste tempo

a que pertenço e não me é

 

estranho-me de estar

mas estou sem me mudar

sou ainda a continuação

de uma juventude longe e perto

de um sonho por acabar

de um ser erecto

 

vivo assim

entre mim e eu próprio

num diálogo de passados e futuros

que se encontram no ser hoje

a raiva, a desilusão, a amargura

 

vivo assim

assim me queiram

ou não

é tarde para

quando o mar trabalha na torreira_preciosa


preciosa

 

pelo mar entro
como se em casa
meigas as ondas
afagam-me as pernas
mãos de mãe
beijos de amante

irmã mais nova
de quantas por aqui andaram
trago no corpo a alegria
de estar viva

mulher menina
nada e criada
entre mar e areia

correm-me barcos nas veias
e são peixes estes braços
que te apertam
nas malhas de amar

(torreira; século XX)