inexplicável
não me perguntes
porque escrevo
não me perguntes
porque estou vivo
em tudo
muito pouco
é explicável
inexplicáveis os dias
onde sou
e tudo acontece
nem só a fé
é mistério

o tino a reparar a cabrita
(torreira; 2013)
inexplicável
não me perguntes
porque escrevo
não me perguntes
porque estou vivo
em tudo
muito pouco
é explicável
inexplicáveis os dias
onde sou
e tudo acontece
nem só a fé
é mistério

o tino a reparar a cabrita
(torreira; 2013)
dos nós
desfazer nós
é trabalho sujo
de mãos outras
ditas limpas
desfazer nós
é desfazermo-nos
criá-los é fazermo-nos
nas mãos do pescador
a arte de fazer e desfazer
os nós das cordas
mas essa é outra arte

(torreira; 2010)
é tempo de sal
é verão
sobre o corpo o sol
arde queima greta
as horas escorregam
devagar
ao comprido do dia
os cristais formam-se
ao ritmo
do sol da água do homem
é tempo de sal
no talho

é conhecido por “buíça” e aos 81 anos é um dos mais idosos marronteiros do salgado da figueira
(armazéns de lavos; achegar; 2017)
cacilda
escrevo devagar
o teu nome
em cada letra
bebo o mar
cacilda és uma gamelas
filha do ti chico
irmã do cipriano
cacilda
sal escamas cordas redes
norte areia
por vezes peixe
cacilda
o sorriso as palavras
poucas o corpo entregue
à faina
cacilda
és MULHER
do mar

(torreira; 2013)
haverá luz?

caminham e sabem
o que deixam
desconhecem o que
os espera
haverá carrascos inocentes?
será que o amor também mata?
neste momento não sei nada
um sopro de vento
o crocitar de um corvo
longe de tudo
perto do fim
um cardo seco
nunca será papoila
ceifada a seara

(figueira da foz; 2017)
tá-se bem

no moliceiro “Dos netos” com o meu amigo ti abílio
(que as minhas para contigo
só à vista terão fim)
há muitos anos
talvez não tantos
que o tempo engana
era assim que
terminavam
as cartas de amor
há muitos anos
no tempo dos meus pais
havia cartas e moradas
postais e telegramas
agora
sms’s e-mail’s
e amor
tipo
tá-se bem

no moliceiro “Dos netos” com o meu amigo ti abílio
(torreira; regata do s. paio; 2016)
não creio
não creio em deus
e isso traz-me uma
felicidade diversa
como não existe
não me trará
qualquer problema
menos um
com que me
preocupar

(torreira; 2012)
se
se judas traiu
cristo
todos conhecem
a história
quem sou eu para
me queixar

(alvor; 2018)
eis o poema
semeia as palavras
ao sabor do sentir
sê nelas
revê-as com a razão
encontra-lhes ritmos
os teus
refaz depois a sementeira
mas cuida de quem
a poderá colher
de nada servirá
o que semeares
se não for colhido
caminha pela areia
carregado e sereno
eis o poema

(torreira; 2012)