essencial
essencial a corda
as mãos
tu nelas inteiro
essenciais as mãos
a corda
tu nelas sempre
essencial tu
fazedor de

(costa de lavos; 2017)
essencial
essencial a corda
as mãos
tu nelas inteiro
essenciais as mãos
a corda
tu nelas sempre
essencial tu
fazedor de

(costa de lavos; 2017)
cálculos
quando se cansou
de somar
subtraiu
quando se cansou
de multiplicar
dividiu
sonhava com
o infinito
e encontrou
o zero
a matemática
não é uma ciência
exacta concluiu
nem eu

rer
(armazéns de lavos; rer; 2017)
o brilho do sal
súbito
tudo é nada
do pouco
que na mão
num sopro tudo
se foi
a memória resiste
onde o presente
abraça o espanto
uma mão parada
no tempo
ainda te acaricia
no brilho do sal
a luz refaz-se
para ser sol
só
no brilho do sal

(morraceira; rer; 2016)
dádiva
é da natureza do sal
a brancura
mesmo se amarga
falso o branco
do açúcar
ainda que doce
um punhado de sal
é pura verdade
toma-o recebe-a

(armazéns de lavos; flor de sal; 2017)
dúvida
aos que não vêem
chamam cegos
aos que julgavam
ter visto
o que chamarão

(morraceira; tirar; 2016)
haverá luz?

caminham e sabem
o que deixam
desconhecem o que
os espera
haverá carrascos inocentes?
será que o amor também mata?
neste momento não sei nada
um sopro de vento
o crocitar de um corvo
longe de tudo
perto do fim
um cardo seco
nunca será papoila
ceifada a seara

(figueira da foz; 2017)
cristais de mar
beijada pelo sol
a água adormece
no leito do talho
cristalina acorda
no estremecer
de humanas mãos
é agora sal
frágil flor
ínfimas pedras
cristais de mar

(morraceira; tirar; 2016)
vive
tudo é efémero
e belo
o momento existe
e tu
vive

(costa de lavos; 2017)
tenho sede
tenho a boca seca
de tantas palavras
e tão pouco nelas
como são pequenas
querendo ser algo
intenção apenas
um copo de água
um abraço
um ombro onde
escreva o poeta
poemas
eu quero gestos
tenho sede
da que se mata
com água

(armazéns de lavos; achegar; 2017)
há muitos futuros
o fim da ilusão
não mata a memória
enterra um futuro
na salgadeira a carne
esperava o verão
o cozido à portuguesa
a couve do quintal
a água do poço
o frango da capoeira
já não há enguias na ria
à limpidez dos dias
nos olhos nos afectos
sabores e saberes
regresso sempre
eis agora do sal a beleza
tempero de outros dias
há muitos futuros

(morraceira; rer; 2016)