de mim

a minha terra
é o mar

(torreira; 2010)
de mim

a minha terra
é o mar

(torreira; 2010)
bem hajam

vivo e escrevo
sempre a direito
por isso recebo
tantas
respostas tortas
bem hajam

(torreira; largar da solheira; 2010)
aturem-me

escrever no tempo
em que me inscrevo
é recusar ser folha
que o vento leva leve
é ser ainda a pedra
na vidraça dos dias
no charco dos conformados
dizer com voz firme
estou vivo porra
recuso-me a morrer
antes
de estar morto
aturem-me

(torreira; regata da ria; 2013)
cristais de mar
beijada pelo sol
a água adormece
no leito do talho
cristalina acorda
no estremecer
de humanas mãos
é agora sal
frágil flor
ínfimas pedras
cristais de mar

(morraceira; tirar; 2016)
vive
tudo é efémero
e belo
o momento existe
e tu
vive

(costa de lavos; 2017)
despede-te devagar
despede-te devagar
do sol
deixa que as gaivotas
na areia
se acolham para mais
uma noite
quando tudo serenar
e do norte
o vento amainar
então parte

(torreira; o carregar do saco;2009)
é pêxe
onde há mar
há pescadores
aprendo com eles
as artes
mais que os rostos
as palavras
tudo é novo
e tão antigo
não há geografia
que nos separe
quando é o mar
que nos junta
é pêxe o abraço

(alvor; empatar anzóis; 2018)
dos deuses

como se da caverna
saído
ofusca-me tanta luz
vejo o bisturi cortar
preciso
os mais ínfimos
detalhes
matando os deuses
sombras caminham
sombras
que sombra fazem
nada mais
como se da caverna
saído
ofusca-me tanta luz
os deuses
também morrem

(torreira; 2011)
dos homens e dos barcos
barcos sem homens
são fantasmas
poisados na ria
belos em horas felizes
tristes órfãos
porque lhes ignoraram
o terem pais
é urgente contar
dos homens
para que haja
barcos

(torreira; safar redes; 2013)
ser da terra

ser da terra
não é por nela
berço ter tido
ser da terra
porque herdada
sabe a monarquia
em tempo de república
seja a gente da terra
a fazer-te um deles
ou negar-te
sê e faz
hoje sou vela e vento

(torreira; regata da ria; 2010)
