crónicas da xávega (181)


recuso ser de férias

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o carregar da rede na zorra

é tempo de olhar
de sentir tudo

o regresso cada dia mais
improvável
é também ele nebuloso

fui
no tempo que passou
espectador atento e preocupado

recuso ser de férias

sou
a impossibilidade de ser mais
sendo menos

fica a memória a pairar na praia
longe

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veio do mar, irá agora ser entendido e secar

(torreira; companha do marco; 2016)

a minha gama (ANÚNCIO)


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praia da claridade com a “boa viagem” ao fundo

procuro
apartamento para arrendar
figueira da foz

tenho muitos livros

imobiliárias amigos
pequenos anúncios
a eterna internet
motores de busca
buscam

apercebo-me de que só posso
aceder à gama média baixa

aposentado com
um metro e sessenta e cinco
a que podia aspirar?

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eu vou conseguir

 

postais da ria (184)


o cigano

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onde antes areia moliço
peixe luz alimento
nada mais que um charco
rodeado de lama

lama na ria e um cemitério
de bateiras
à espera da despedida
dos donos

a lama invade tudo

chapinha-se na lama
e dá-se-lhe bandeira doirada
na ilusão de pescar incautos

reconheço o fim do tempo
na maré vazia
a que nem os homens resistem

partem os que podem
ficam os que já não
ou porque também

o cigano desmonta a tenda
lava os pés e as mãos
na pouca água que resta
purifica-se

o cigano não muda a terra
muda de terra
é esse o seu destino

sonhar sonhar sonhar
nada é em vão

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(torreira; porto de abrigo; 2016)

postais da ria (183)


o meu país arde

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9 horas da manhã e era noite

o meu país arde
de abandono
e não há lágrimas
que apaguem
erros de anos

o meu país arde
de ter sido um dia
à beira mar plantado
da beira mar arrancados
os filhos mal amados

o meu país arde
o meu país arderá
até nada mais restar
que a memória do verde
e de terem havido árvores
que se tornaram naus e barcos

o meu país arde
como arderam os olhos
dos que partiram

quem se lembrou deles então?

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haverá beleza no inferno?

(torreira; 8 de agosto de 2016)

crónicas da xávega (179)


meditação breve

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carrega-se o saco para dar a volta ao barco pela ré

como areia por entre as malhas
dos dedos estes dias

tece-se a rede com fios de raiva
cansaço desespero
por vezes

caminha-se e é o mar
sempre o mar
que dá destino aos passos
não os homens

teima-se
teima-se muito
mas o carnaval é o ano inteiro
e não há máscara
que não caia ao anoitecer

acendo um cigarro
que não fumo
abro uma cerveja
que não bebo
e faço de conta que existo
para me rir de mim

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não há máquinas para estas tarefas: há homens

(torreira; 2010)

os moliceiros têm vela (231)


do tamanho

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(relendo fernando pessoa
«Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.»)

olho à minha volta e vejo
que nesta terra
os que nela mandam
não têm sequer
o tamanho da altura que têm

como poderão ver?

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(murtosa; regata do bico; 2013)

os moliceiros têm vela (228)


ao meu funeral
(que não vai haver)

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o “Doroteia Verónica”

irão

alguns
para se despedirem

outros
por ser conveniente

muitos
para confirmarem que

o preto é uma cor
sempre na moda
emagrece e fica bem

e depois
roupa preta
quem a não tem?

EU!

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mais um moliceiro que teve de ser vendido e anda amputado pelos canais de aveiro

(murtosa; regata do bico; 2009)