caminho agora pelo lado da sombra só o sol da memória aquece os dias onde navego em silêncio com os amigos um muro branco invisível protege-me do sol não da ingratidão caminho ainda

infinitas manhãs
infinitas manhãs de gestos suspensos no vazio de não haver tecto infinitas manhãs de impiedosas mãos desfiguradas num enclavinhar de dedos na lisura das paredes infinitas manhãs de doridos olhos encovados na palidez do rosto arrastando-se fundos pelo dia imposto infinitas manhãs porque não me deixais dormir

era manhã muito cedo ainda ensonado o sol recusava-se a rir a névoa que cobria os campos era um véu tímido que lhe tapava os lábios lentamente o dia espreguiçou-se, bocejou iniciou o ritual do levantar escondido atrás de uma erva pequenina a tudo assistia estupefacto no momento em que chegaste vinhas de muito longe poisada numa folha verde trazida pelo vento gelado da manhã eras nova no prado ninguém te conhecia para mim sorriste e as outras abelhas invejaram-me a companhia
a morte do fotógrafo
foi a enterrar hoje em setúbal terra onde nasceu eu também e fotografou com o coração o meu primo zé pinho onde quer que estejas zé regista a eternidade para a eternidade aqui fica uma imagem do mar onde sado morre para renascer imensamente maior assim tu abraço forte guardo o livro de fotos que publicaste os postais de natal que eram fotos tuas guardo-te

perdi definitivamente o meu pai(selfie na bilbioteca habitada) não publiquei nenhum livro não ganhei nenhum prémio fui apanhado pela doença de bowen vá consultem o dr. google perdi definitivamente o meu pai não contraí covid ainda já tomei as três doses e observo as regras ganhei resiliência gosto da palavra embora não saiba muito bem o significado está na moda convém usar aumentaram as desilusões morreram alguns amigos li muito fotografei o que pude gravei poetas e juntei umas letras fiz e reforcei amizades os amigos sempre não arranjei mulher mas ganhei uma sogra uma desgraça nunca vem só de resto exames e análises foram bons o meu urologista queria-os para ele as rotinas confirmam que tirando o que está mal o resto está bem estou vivo e continuo a inventar dizer que isto é poesia faz-me rir mas é o melhor remédio e por isso mesmo comparticipado a cem por cento pela adse
meticulosamente
começou a despi-la
os dedos prendendo-se
nas pequenas coisas
desabituados de
uma a uma
as peças
dispostas com esmero
na cadeira mais próxima
até que
o corpo surgiu inteiro
e puro
limpo de disfarces
admirou-lhe a perfeição
contemplou-a absorto
durante alguns segundos
tinha conseguido
depois
depois entregou a boneca à filha
para que lhe vestisse o conjunto novo
que a mãe momentaneamente ausente
lhe tinha oferecido pelo natal