à companha dos leais

as flores também crescem no mar libertas de vasos e terras duras passam o tempo agora a sonhar os livros escreve-os o olhar
à companha dos leais

as flores também crescem no mar libertas de vasos e terras duras passam o tempo agora a sonhar os livros escreve-os o olhar
sabes

sabes, estou cansado, apetece-me dormir e deixar que volte o tempo em que todos os dias é verão e eu … eu andava sem cuidados pelas ruas
mortal

cresço no tempo de onde vou lentamente partindo solares estes dias lágrima retida desilusão sonho parto e fico é perigoso estar vivo mais perigoso respirar mortal falar
o pão nosso

o pão nosso nos dai hoje A TODOS!
raízes

vêm de longe trazem nos olhos a limpidez da ria antiga homens inteiros fogem das ribaltas que outros buscam a qualquer preço escondem-se para serem o que sempre foram são eles serão sempre eles as minhas raízes
Recriação da safra à moda antiga” – foto 3

vazia vai vertical a giga vaidade da tiradeira
s//t

de tudo o que vivi só posso dizer uma coisa vivi-o intensamente é de mim que falo quando semeio palavras por aí
carta aos donos da terra

ser do mundo cidadão é destino de quem nasce em pobres terras que mundo também o são ah donos da terra guardados os palmos de terra na terra de que donos vos dizeis só essa vossa será porém a ela fugis porque de tão vossa a não quereis à terra o que da terra é digo terra que vos ofereço para que seja toda vossa e nela vós todos que donos sois quereis a paz aí a tereis
morreu ontem, 15 de agosto de 2020, o ti zé formigo (67 anos)
era um bom amigo, do que lhe conhecia, admirava a dedicação à esposa – em cadeira de rodas – e a alegria
tinha defeitos? quem não tem… fico triste e penso que a murtosa também
à família, em particular à esposa, o meu silêncio com um sorriso do ti zé dentro – lembrá-lo-ei sempre assim

ao ti zé formigo
não ti zé
não estou na murtosa
nem você agora
era nas regatas de moliceiros
ou bateiras
ou no são paio
que nos encontrávamos
havia sempre um abraço
um sorriso uma salvação
uma salvação ti zé
agora que ninguém o salva
lembro-me do tempo
em que na murtosa
as pessoas se salvavam
vão partindo os amigos
a família desse tempo
e eu vou partindo aos poucos
bocados de mim que se foram
pedaços de outros
que comigo ficam e são raízes
ti zé
você é uma raiz
que fica comigo
abraço do “senhor cravo”

(murtosa; 2019; figueira da foz; 2020)

torreira; 2013