vive

quando o longe se faz perto
e estás onde estiveste
quando o tempo se apaga
e és o que já foste
então a imagem é tua
mesmo se por outros olhos
vê e sente
ouve e sê
tudo está aqui
para ti
vive
(torreira)
vive

quando o longe se faz perto
e estás onde estiveste
quando o tempo se apaga
e és o que já foste
então a imagem é tua
mesmo se por outros olhos
vê e sente
ouve e sê
tudo está aqui
para ti
vive
(torreira)
o real no virtual

amanhã
quando falarem de mim
ou me esquecerem
como é normal
que fiquem estas imagens
de um tempo
de uma gente
de um modo de vida
a minha memória
será então
não um nome
mas o que ficou
espalhado
nas redes sociais
num mundo virtual
onde o real resiste
sem fronteiras
(torreira; 2016)
para o meu amigo
vitor cacheira

só vai ao mar
quem quer
só volta do mar
quem sabe
ou
consegue

(torreira; 2016)
urgente

ao longe
muito ao longe
a memória
algures um barco
dentro dele um homem
o homem-barco
urgente unir os que
são a memória perto
desse tempo longe
não muito ainda
dar-lhes as mãos
de que carecem
para que um dia
não se escreva
não se possa dizer
ao longe
muito ao longe
havia um barco
dentro dele um homem
um homem-barco
eu

(regata do s. paio; 2016)
arribarei

stalone e aurora caravela
virão os dias de mar
perguntarão por mim
as gaivotas os amigos
os que se habituaram a
não há mar que caiba
numa praia
nem memória que se esgote
num areal
tenho o tamanho que me deram
os que ao mar foram
vem deles este destino de onda
em busca de praia
arribarei onde

(torreira; 2013)

como se numa dança
por entre as mãos
se faz o caminho da rede
(torreira; 2016)
o grito por dentro

como se nada
ninguém
o olhar embebeda-se
de tanto
homem e mulher
camaradas
homem e mulher
um barco
uma arte
a vida da ria
homem e mulher
quantas vezes
tão pouco
para tanto
o silêncio
é um barco sem gente
oiço o grito
mais ninguém?

(torreira; o alar da solheira)
gosto de moliceiros

à janela o gato
olha e lambe os bigodes
recorda os tempos duros
da rua do não saber quando
do passar mal
arriscou sofreu
ganhou
não esqueceu
mas cansou
olha só
à janela o gato
quantos à janela?
não gosto de gatos
e gostos não se discutem
gosto de moliceiros
e da garra com que alguns
se fazem do tamanho do barco
porque são maiores
e não conhecem janela onde

(regata da ria; 2010)
tudo é nada

quando tudo acaba
o que começa?
quando o ter sido
não voltará a ser
o que resta?
quando o barco
vencer o mar
nem sempre os homens
se vencem
no fim do fim
não serei nada
encontrei
uma concha na areia
no recuar da onda
peguei nela
senti-lhe a leveza
na palma da mão
tudo era eu
tudo é nada

(torreira; 2016)
porquê

faz um dia do teu tamanho
depois deixa-o crescer
e vai com ele
ao encontro do sol
há aves poisadas na ria
são barcos com homens
velas ao vento braços abraços
vencidos cansaços
dos dias cinzentos baços
o que vai em último
vai também
e isso faz dele
um primeiro diverso
o que resiste
faço o dia com
o meu tamanho
encho-o com uma
única palavra
porquê

(torreira; s. paio; 2014)