postais da ria (209)


o real no virtual

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amanhã
quando falarem de mim
ou me esquecerem
como é normal

que fiquem estas imagens
de um tempo
de uma gente
de um modo de vida

a minha memória
será então
não um nome
mas o que ficou
espalhado
nas redes sociais

num mundo virtual
onde o real resiste
sem fronteiras

(torreira; 2016)

os moliceiros têm vela (258)


urgente

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ao longe
muito ao longe
a memória

algures um barco
dentro dele um homem
o homem-barco

urgente unir os que
são a memória perto
desse tempo longe
não muito ainda

dar-lhes as mãos
de que carecem
para que um dia
não se escreva
não se possa dizer

ao longe
muito ao longe

havia um barco
dentro dele um homem
um homem-barco

eu

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(regata do s. paio; 2016)

crónicas da xávega (197)


arribarei

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stalone e aurora caravela

virão os dias de mar
perguntarão por mim
as gaivotas os amigos
os que se habituaram a

não há mar que caiba
numa praia
nem memória que se esgote
num areal

tenho o tamanho que me deram
os que ao mar foram
vem deles este destino de onda
em busca de praia

arribarei onde

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(torreira; 2013)

postais da ria (208)


o grito por dentro

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como se nada
ninguém

o olhar embebeda-se
de tanto

homem e mulher
camaradas

homem e mulher
um barco
uma arte
a vida da ria

homem e mulher
quantas vezes
tão pouco
para tanto

o silêncio
é um barco sem gente

oiço o grito
mais ninguém?

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(torreira; o alar da solheira)

os moliceiros têm vela (257)


gosto de moliceiros

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à janela o gato
olha e lambe os bigodes
recorda os tempos duros
da rua do não saber quando
do passar mal

arriscou sofreu
ganhou
não esqueceu
mas cansou
olha só

à janela o gato
quantos à janela?

não gosto de gatos
e gostos não se discutem

gosto de moliceiros
e da garra com que alguns
se fazem do tamanho do barco
porque são maiores
e não conhecem janela onde

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(regata da ria; 2010)

crónicas da xávega (196)


tudo é nada

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quando tudo acaba
o que começa?

quando o ter sido
não voltará a ser
o que resta?

quando o barco
vencer o mar
nem sempre os homens
se vencem

no fim do fim
não serei nada

encontrei
uma concha na areia
no recuar da onda
peguei nela
senti-lhe a leveza
na palma da mão

tudo era eu
tudo é nada

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(torreira; 2016)

postais da ria (207)


porquê

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faz um dia do teu tamanho
depois deixa-o crescer
e vai com ele
ao encontro do sol

há aves poisadas na ria
são barcos com homens
velas ao vento braços abraços
vencidos cansaços
dos dias cinzentos baços

o que vai em último
vai também
e isso faz dele
um primeiro diverso
o que resiste

faço o dia com
o meu tamanho
encho-o com uma
única palavra

porquê

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(torreira; s. paio; 2014)