mais uma 5ª de leitura na biblioteca municipal da figueira da foz, ponto de encontro com autores que ainda não lemos, motivo para os ler ou revisitar os já lidos. viagem outra, por vezes, ao de dentro dos autores.
sempre, mas sempre o prazer de estar com quem escreve as palavras que nos seduzem impressas em livro.
(Isabel Rio Novo nasceu no Porto.
Doutorada em literatura comparada, é docente no ensino superior de Escrita Criativa e outras disciplinas nas áreas da literatura e do cinema.
Autora de várias publicações no âmbito dos estudos intermédia, das literaturas portuguesa e francesa e da teorização literária, já integrou o júri de vários prémios literários e de fotografia.
Gosta de dizer poesia, embora não a escreva.
Como ficcionista, começou a publicar dispersamente desde a adolescência.
Em 2004, escreveu a novela O Diabo Tranquilo, em colaboração com o poeta Daniel Maia-Pinto Rodrigues.
Em 2005, viu o romance A Caridade distinguido com o Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes.
Em 2014, publicou o volume de contos Histórias com Santos. O romance Rio do Esquecimento, finalista do Prémio LeYa 2015, foi editado pela Dom Quixote.
Cresceu nos arredores de Lisboa entre futebóis de rua, livros de aventuras e matinés de filmes clássicos.
Licenciou-se em Comunicação Social e cumpriu um sonho de juventude ao fazer crítica de cinema. Depois pôs uma mochila às costas e fez uma viagem à volta do mundo. No regresso, especializou-se em textos sobre gastronomia e turismo, foi pai de uma menina e plantou um pessegueiro.
Atualmente trabalha na tradução de romances e livros de não-ficção. Vive apaixonado pelo ofício de descobrir histórias e imaginar personagens.
Em 2013, publicou «Revolução Paraíso» (Porto Editora), romance passado no pós-25 de Abril. Seguiu-se a distopia «O Último Poeta» (Poética Edições), em 2015. Nesse mesmo ano foi finalista do Prémio LeYa com «Seja Feita a Sua Vontade», novela ainda inédita, pois acabaria por ver publicado primeiro o livro «Uma Parte Errada de Mim» (2016, Casa das Letras), que junta memórias autobiográficas e reflexões sobre a vida ao relato do tratamento de um linfoma.
este registo foi realizado dia 3 de maio, de 2014, na livraria alfarrabista miguel carvalho, em coimbra, com a presença de eduardo de sousa, um dos proprietários da livraria letra livre, que editou o livro “&etc uma editora no subterrâneo” e vitor silva tavares.
o facto de só agora ser publicado é produto de uma visita ao baú e de, apesar de considerar que a qualidade visual do registo não me agradar, pelas condições locais de luz, o discurso oral, o testemunhos, impuseram-se sobre o aspecto meramente formal do vídeo.
espero que, mesmo que tenham de fechar os olhos enquanto o vídeo corre, fruam das palavras, essas que tão caras fotam sempre a vitor silva tavares. penso que ficamos todo mais ricos com este testemunho.
Notas:
vitor silva tavares e a &etc
nasceu no bairro da madragoa, onde viveu até à sua morte, na rua das madres.
começou a colaborar em jornais no final da década de 50 durante o curto período em que passou por angola, tendo continuado as colaborações em lisboa, já no início dos anos 60.
em 1967 fundou o &etc, um magazine de letras, artes e espectáculos do jornal do fundão, que teve 26 números.
em 1973, mais precisamente a 17 de janeiro, sai o primeiro número do &etc como revista autónoma, que durou 25 números. primeiro teve uma publicação quinzenal, passando depois a mensal, tendo o último número saído em outubro de 74. tratava-se de uma publicação cultural bastante original, com colaboradores de grande qualidade. entre o corpo de redacção fixo e colaborações avulsas passaram por lá nomes como herberto hélder, nuno júdice, pedro oom, antónio ramos rosa, fiama hasse pais brandão, joão césar monteiro e armando silva carvalho, entre muitos outros.
em 1974 nasce a editora &etc, pequena editora de culto, situada na rua da emenda, dirigida de forma praticamente artesanal por vítor silva tavares. é uma editora com uma linha muito própria. tem no seu catálogo autores portugueses como alberto pimenta, joão césar monteiro, álvaro lapa, herberto hélder, adília lopes, manuel de freitas e muitos outros. estrangeiros, tem nomes como paul lafargue, antonin artaud, rilke, sade, trotski ou roger vailland. tem editado sobretudo muitos textos de cariz alternativo, com edições muito pequenas, de poucas centenas de exemplares. tem a particularidade de não fazer reedições, o que significa que uma grande parte do seu catálogo se encontra esgotada. também graficamente é uma editora muito particular, com um formato original, quase quadrado (15,5 por 17,5 cm) e capas criteriosamente escolhidas. a produção é muitíssimo cuidada, com uma grande atenção a todos os pormenores.
iniciou a sua actividade de livreiro antiquário em 1994 por influência do seu amigo bernardo trindade , filho de um dos mais antigos livreiros do país. no ano seguinte, após terminado a licenciatura em engenharia geológica em lisboa, dedica-se por exclusividade à actividade de livreiro antiquário abrindo a sua primeira livraria em coimbra. de uma forma geral trabalha os livros antigos que dizem respeito à cultura portuguesa, tendo no entanto e por paixão ao tema, enveredado pela literatura portuguesa do séc. xix e xx. publicou, entre outras: “catálogo da biblioteca do prof. paulo quintela – literatura portuguesa séc. xx” em 2000; “descrição bibliográfica camiliana de uma muito importante e valiosa colecção de bibliografia activa e passiva de camillo castelo branco” em 2003; “catálogo de livros seleccionados para o salão do livro antigo da xvi bienal de antiguidades de lisboa” em 2004rn& catálogos bibliográficos integrados em exposições de livros antigos e pintura…
junho de 2011 – muda de instalações para adro de baixo (coimbra) ocupando 3 pisos de um edifício do século xix, onde reúne mais de 45000 volumes.
outras das suas actividades paralelas dizem respeito à investigação geológica, tendo em 2003 realizado um mestrado em cartografia geológica e é actualmente doutorando de cartografia e paleontologia. é autor de diversos trabalhos publicados na área da malacologia, história da geologia, geologia, cartografia e sedimentologia.
o surrealismo é a ideologia na qual se identifica e trabalha em projectos editoriais e pessoais, tendo iniciado a sua actividade em 1995 como colagista e em desenho. neste sentido tem efectuado nas instalações da livraria eventos culturais sem interesses comerciais exposições e eventos ligados ao surrealismo.
em 2009 cria a marca registada“debout sur l”oeuf – edições surrealistas”. voltada à realização, não só de eventos mas sobretudo de livros-objectos, produziu mais de uma dezena de edições limitadas, desde alguns exemplares até 200. em 2010 criou a primeira revista objecto portuguesa debout sur l”oeuf – nº1″, limitada a das tiragens de execução manual: uma de 30 exemplares com 5 originais e outra de 70, em que colaboraram mais de 30 criadores vivos e ligados ao movimento surrealista.
junho de 2011 – com a mudança de instalações para adro de baixo coimbra) ocupando 3 pisos de um edifício do século xix, cria na casa livreira uma galeria debout sur l”oeuf onde apresenta exposições de pintura, desenhos, esculturas, fotografia, etc …
Uma pequena livraria, criada em Abril de 2007, de livros novos e usados, localizada no centro de Lisboa especializada em literatura e ciências humanas, onde as as edições independentes tem um particular destaque.
apresentação do livro “ a máscara e o sonho” de vitor pena viçoso
telas de elisabeth leite
participantes
aurora gaia
libânia madureira
maria conceição magro
vitor pena viçoso
elizabeth leite
o vídeo
(notas biográficas
vitor pena viçoso
O Prof. Doutor Vítor Pena Viçoso é aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se doutorou em Literatura Portuguesa (1989). Foi docente das disciplinas de Literatura Portuguesa e Cultura Portuguesa (séculos XIX e XX). Para além de ensaios sobre Raul Brandão, Carlos de Oliveira e José Saramago, publicou artigos em jornais e revistas, com particular incidência em temas e autores do Romantismo, do Simbolismo e do Neo-Realismo, movimentos privilegiados na sua investigação universitária. É actualmente director da revista Nova Síntese – Textos e Contextos do Neo-Realismo, da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo.
Elizabete Martins Leite, Nasceu na Venezuela a 21 de Janeiro de 1982, reside em Oliveira de Azeméis, desde 1989. Finalista de licenciatura em Pintura na Escola Universitária das Artes de Coimbra. ARCA EUAC.
EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS
2004 “ …Aos 77” – Café com Arte (Coimbra) 2005 Galeria da ARCA EUAC (Coimbra) 2005 Art’ em Cadeia – Antiga cadeia dos Paços de concelho P. Bemposta.
EXPOSIÇÕES COLECTIVAS
2004 Pavilhão de Portugal (Coimbra) Wrist iwc replicawatch are available in all ranges from branded to cheap one.These watches are also attractive and stylist.It is good for those want to change their watches according to their clothes. 2004 Prémio Baviera – Centro Cívico Justino Portal Cesar 2005 Casa Museu Bissaya Barreto (Coimbra) 2005 Bienal de Vila Nova de Cerveira – Centro Cultural de S. Roque 2005 Convento de S. Francisco 2005 Galeria São Mamede – Colectiva de Verão
“Eu não quero que um quadro seja um complemento, a história que conta, mas antes que seja fundamentalmente a plasticidade que tem, não obstante a história que conta seja um complemento com importância para a plasticidade.”
Elizabeth Leite actualmente pinta em telas de grandes dimensões, representando figuras próximas do tamanho natural, que ocupam grande parte do suporte. Estas, encontram-se envolvidas em ambientes que representam alegoricamente espaços interiores que ajudam a descrever a cena, o acto, pela sua constituição. Nestes ambientes encontramos objectos que geram o ambiente “casa”, “quarto”, “sala”, onde não há a preocupação de os arrumar, mas antes pelo contrário, testemunhar os actos apresentados como o prazer, a ousadia, o descanço, a felicidade de viver.
As figuras, tendem a extremar bastante as características físicas das personagens representadas, que normalmente aparecem em roupas intimas, roupas interiores. Há nelas um prazer assumido, do qual não importa os resultados inestéticos do acto cometido. É nesta relação entre figura humana (personagem) e objectos que se constrói a composição sobre o suporte (tela), mas o que importa não é só esta harmonia entre objectos e espaço, mas sim a forma como se põe a tinta. Por isso, a maneira como as figuras são apresentadas propõe ser a ligação do que representam com aquilo que são: tinta, matéria plástica sobre um suporte, feita principalmente de traços e de algumas manchas, aceitando escorridos que só aparentemente são acidentais, assim como zonas por cobrir de tinta.
Os elementos vão adquirindo forma e proporção com a justaposição e cruzamento de inúmeras pinceladas. O pincel exerce a função de uma coisa que risca, que constrói, resultado plástico do seu trabalho, que procura de forma agradável levar-nos para um mundo abstrato no meio de cenários com sentido figurativo e descritivo.
Procura que o resultado do seu trabalho crie empatia com o observador, esta ligação talvez resulte da proximidade, da relação que encontramos naquele acontecimento, naquela cena que nos parece familiar, não constituindo propriamente uma critica negativa da realidade mas antes o encarar de situações com boa disposição servindo de pretexto para pintar.
a safar caranguejo, vejam-se as mãos comidas de sal
actualmente na torreira a pesca aos chocos e aos linguados faz-se utilizando a arte “solheira”, cuja estrutura se encontra legislada nos seguintes termos:
“descrição- rede de emalhar de três panos (tresmalho) fundeada
características:
– comprimento máximo da rede 500m
– altura máxima da rede – 60cm
– malhagem mínima do pano central – 100mm” (já reduzida para 80mm)
o nome da arte advém do facto de ter servido em tempos para a pesca da solha, peixe muito abundante na ria e que com o desaparecimento do moliço, se tornou espécie rara.
na torreira à totalidade da rede chama-se “andar” e às porções de que se compõe “rede”.
cada “rede”, ou “ração”, ou “caçada”, custa 67 euros, sendo necessária para construir um “andar”, pelo menos 16 redes, ou seja, um “andar” custa 1.072 euros.
para trabalhar é necessária uma bateira, com a seguinte estrutura:
– 12 cavernas
– 7,5 m de comprimento
– 1,80m de boca
– 45cm de pontal
a bateira custa cerca de 3.000 euros e é accionada por um motor de 8 cv, no valor de cerca de 2.500 euros.
ao conjunto de apetrechos com que uma bateira deve ser dotada para passar na vistoria, chama-se “parlamenta” e custa cerca de 500 euros.
anualmente é necessário proceder a uma vistoria, que custa cerca de 80 euros, para efeitos de renovação de licença, a qual só é renovada se o pescador tiver declarado o mínimo de 5.000 euros de pescado na lota.
ou seja, e para concluir, somando as parcelas, os custos fixos para o exercício da arte, orçam em 7.150 euros .”
durante o ano de 2010 fui várias vezes ao rio largar e alar redes com pescadores da torreira, de alguma idas ficaram registos fotográficos, doutras vídeos. não houve um pescador a quem tenha pedido para ir com ele, que me desse uma nega, por isso é a todos os pescadores da torreira que dedico estes registos.
os momentos mais dolorosos e custosos são o alar e o safar das redes, é desses momentos que tratam os vídeos que aqui mostro.
as redes são largadas no fim da enchente e aladas, em princípio, no início da vazante. a bateira fica “atravessada” e, para não ser arrastada pela maré, é lançado à ria, do lado de “cima”, um peso ao qual fica amarrada.
o esforço da alagem é notório nos registos.
em média as redes ficam cerca de uma hora na ria. podem ficar mais, depende do pescador, do local onde largar, se há muitas algas na ria ou o sítio é rico em peixe (por costume) mas também em caranguejo.
por vezes uma hora na água, dá várias a safar. se for caranguejo então são as ferradelas, os rasganços nas redes e trabalho dobrado.
não é invulgar uma hora na ria, uma tarde a safar
(nota : procurei nalguns destes registos não fazer corte de tempos que “parecem” mortos. fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.
que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)
que idade tem um homem
quando é um homem de todas as idades?
o que pesa aos ombros de um homem
quando o que carrega é a própria vida?
um mastro de moliceiro
foi tronco de árvore
é hoje a raiz de uma gente
onde a bandeira de um povo
ergue a voz de ser ainda
amanhã ti zé
amanhã iremos sempre à ria
seremos todos os que já foram
todos os que hão-de ser
sabendo que aqui
o moliço foi rei
e os homens quando falavam
empenhavam a palavra
ainda os há ti zé
ainda os há
os de palavra aqui
(regata do bico; 2016)
o vídeo da regata
(todos os anos no primeiro fim de semana de agosto realiza-se na murtosa, no cais do bico, a festa do emigrante.
o ponto alto é no domingo, depois de almoço, a regata de moliceiros. sempre a festa maior da ria.
este vídeo, mais um registo para memória futura, foi feito com a câmara colocada na bica da proa do moliceiro “A. Rendeiro” do ti zé rebeço, moliceiro dos velhos tempos e que bebe na ria a vida de cada dia, aos 76 anos idade. é seu camarada, nos últimos anos, manuel antão.
procurei neste registo não fazer corte de tempos que “parecem” mortos, fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.
que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)
cacilda brandão, mulher do mar e da xávega da torreira
em primeiro lugar, queria dedicar estas breves palavras aos meus amigos, pescadores da xávega da torreira que, ao longo dos anos, foram partindo: antónio murta, zé trabalhito, alfredo fareja, estrela, antónio trabalhito, zé murta, joão pequeno, nicole, ti alfredo neto, ti antónio neto, carlos aldeia, carlos seminhas, antónio acabou, serra, vitor caravela, a todos os outros que já partiram e o nome não me ocorre e aos que continuam a arte, por isso a ti também ricardo silva.
erros que aqui possam encontrar estão sempre abertos a sugestões e correcções, este não é um texto de sábio, exaustivo ou fechado. é o que é, nada mais.
há já alguns anos que me tenho vindo a dedicar a fotografar companhas da torreira e da praia de mira e, em simultâneo, ao estudo da história da xávega. chegou o momento de deixar testemunho em palavras e vídeos (em que a qualidade não é o mais importante, mas sim a visualização dos procedimentos).
a minha primeira aprendizagem foi feita com um bom e “velho” amigo, o arrais joão da calada, da torreira, que me foi respondendo às perguntas que lhe fazia e enriquecendo o meu conhecimento teórico com o seu saber de arrais.
desde 2005 e até 2016 segui, ano após ano, a “companha do marco”, na torreira, e com ela continuei a minha aprendizagem, observando de perto a actividade e registando termos e técnicas.
fui ao mar com o chico giesteira, então arrais da “companha do pepolim” e várias vezes com a “companha do marco”.
resolvi juntar em 3 clips de vídeo, aqueles que considero os momentos relevantes de um “lanço de xávega”:
“ir ao mar”
“arribar e alar”
“alar e aparelhar”
publiquei já um vídeo a que chamei “um lanço de xávega” e onde se encontra registado, numa visão da bica da proa para dentro do barco, a ida ao mar, o largar das redes, o arribar e o aparelhar
nestes 3 novos registos a visão é do exterior, segmentada e procura fixar procedimentos.
comecemos então pelo princípio
1- xávega, arte-xávega, arte xávega, artes
são as designações utilizadas para designar esta arte de pesca, não cabe aqui a discussão sobre qual a mais correcta, há argumentos a favor de qualquer uma. eu uso “xávega”
2- companha
numa companha podemos distinguir dois grupos, mais ou menos fixos: os que vão ao mar e os que fazem trabalho só na praia. os primeiros também trabalham na praia, mas os segundos raramente, ou nunca, vão ao mar.
se a companha tiver um arrais digno desse nome, a organização das tarefas e sua atribuição fica estabelecida desde início e no decorrer do lanço só se vê uma “companha que funciona como uma orquestra”.
3- lanço
para mim o lanço começa no aparelhar do barco – carregá-lo com as redes, as calas (cordas) e os arinques (bóias) – e termina com o estender na areia a rede que foi ao mar e fechar de novo o saco.
há, é bom dizê-lo, dois tipos de lanços : “mão abaixo” e “mão acima”.
para os distinguir é necessário introduzir o conhecimento das designações das cordas (calas) que, fazendo fixe no “calão”, servem para puxar a rede. a que fica em terra quando o barco se faz ao mar chama-se “reçoeiro”, a que o barco traz quando vem do mar chama-se “mão de barca”.
num lanço “mão abaixo” – o mais vulgar – o largar da rede é feito de forma que a “mão de barca” fique a sul do “reçoeiro” – aqui como na ria, ou na ria como aqui, o norte é “cima” e o sul “baixo”.
num lanço de “mão acima” o largar da rede de cerco é feito de forma que a “mão de barca” fique a norte do “reçoeiro”.
4- largar
pela madrugada e depois de almoço, o arrais vai “ler” o mar para saber se se pode “trabalhar” no mar. na leitura entram vários factores de que destaco dois : a altura e o “ritmo” das ondas – diria, em termos simples que o ritmo das ondas se mede pelo número de ondas seguidas, 3,5, 7 …..- quanto maior for o ritmo mais dífícil é que a duração do intervalo entre duas séries consecutivas, o “liso” dê tempo para que o barco ganhe o largo. o arrais tanto lê o mar rente à praia, como ao largo – na torreira, devido ao declive da costa forma-se um “lago” entre a praia e o largo, que se atinge passando o “cabeço” -, por isso o arrais lê as ondas não só perto da praia mas também no “cabeço”.
para se fazer ao mar o barco, não há muitos anos, era impulsionado por uma “muleta” de madeira, apoiada numa peça – em madeira ou metal – existente no exterior da bica da ré, e era empurrada por um tractor de força – antigamente, na torreira até 2001, por bois.
quando se fazia ao mar o barco tinha três pontos de fixe: a “muleta”, o “reçoeiro” e a “regeira”. a muleta fixava-o porque a extremidade que se apoiava na bica da ré, tinha a forma de V que “abraçava” um pouco a costura das tábuas da ré. amarrava-se ainda ao golfião de estibordo uma corda – a “regeira” – que era atada a um bordão que se enterrava na areia, sempre a norte – são de norte as correntes dominantes – que forçava o barco a ficar perpendicular à praia. o camarada que fosse à ré a controlar o reçoeiro mantinha-o laçado na bica e, também ele, fazia mais um “fixe” para segurar o barco. aliás, era ele que ao largar o reçoeiro e ao grito de “bota!” dava ordem para que o barco largasse.
há praias em que o barco é levado ao mar em cima de uma estrutra metálica com rodas; noutras, como na praia de mira, a muleta foi substituída por uma estrutura triangular que apoia na pá do tractor; na torreira, desde 2011, a companha do marco passou a utilizar duas “muletas” – dois varões de aço que encaixam em cápsulas de metal fixas a meia altura do costado, e que são fixos ao tractor – exemplo logo seguido pela companha do “olá s. paio”. nestes casos o largar é muito mais seguro e não existe “regeira”.
5 – arribar
o momento mais perigoso numa ida ao mar é o “arribar”: o barco vem leve e só tem como “fixe” a “mão de barca”. repare-se como o arrais vai laçando a “mão de barca” na bica da ré para “segurar” o barco quando se aproxima o momento de “apanhar a onda certa e surfar até à praia”. a decisão de se fazer à praia tem muito de arte, saber e sorte.
tarefa arriscada também a dos homens que levam as cordas com os ganchos para enfiar nos “arganéis” da proa, é enfiar e correr, não vá vir uma onda traiçoeira e o barco atravessar-se ou avançar depressa demais – há registo de pernas esmagadas em situações destas. o tractor a que são presas e terá de tirar o barco do mar, tem uma responsabilidade enorme no sucesso destes momentos de tensão e perigo, de que poucos se apercebem.
mal o barco arriba, a “mão de barca” é levada a força de braços até ao tractor que lhe está atribuído e começa a “alagem”. em simultâneo começa a limpeza e aparelhar do barco.
6 – tarefas em terra: alar e aparelhar, porfiar
alar
como já disse acima, quando o barco se faz ao mar fica em terra a ponta do reçoeiro que é fixa ao tractor que lhe foi atribuído, o sentido de deslocação do barco, norte ou sul, determina o movimento do tractor, uma coisa porém é certa : o tractor do “reçoeiro” ficará sempre a norte do tractor da “mão de barca”. normalmente a alagem do “reçoeiro” começa por manter esticado reçoeiro quando o barco se faz “mar adentro”, caso haja uma deslocação inicial paralela à praia, ou desde o largar, se o barco largar logo mar adentro – perpendicular à praia – . o alar do reçoeiro começa sempre depois do barco largar da rede.
quando me referi ao aparelhar do barco falei nas “calas” sem as descrever. as “calas” não são mais que um conjunto de rolos de corda, amarrados uns aos outros por nós. repetindo-me, há duas calas: “reçoeiro” e “mão de barca”.
durante a alagem o saco tem de vir paralelo à praia para que o pescado não fuja, o que exige um controle permanente do andamento dos aladores e do trabalho dos elementos da companha que lhe estão afectos. os nós são uma referência permanente e, dada a distância por vezes grande entre o alador da “mão de barca” e o do “reçoeiro” a comunicação entre as duas equipas é feita por sinais de boné ou, mais modernamente, por intercomunicadores. o arrais está sempre atento a estes procedimentos, pois podem pôr em causa todo o lanço. quando os “arinques” do “reçoeiro” e da “mão de barca” estão ao alcance da vista são eles a referência do paralelismo. mas nem todos os olhos vêem o mesmo.
ao meio do saco existe um outro arinque a que chama “calime” ou “calima”.
quando a rede está a chegar à praia já o barco está aparelhado e toda a companha está pronta para “segurar as mangas” com os “bordões” – “estacadões” na praia de mira – e, no final, trazer o saco para seco.
aparelhar
aparelhar o barco é carregá-lo com a rede e as cordas que constituem o “aparelho”: a xávega.
para este processo podemos identificar duas esquipas: a que se ocupa da rede e do reçoeiro e a que trata da mão de barca.
a equipa da rede e do reçoeiro coloca-se sensívelmente a meio do barco, logo a seguir ao traste em direcção à ré e começa o aparelhamento com o carregar da rede seca que está em cima da zorra. no barco um camarada vai recebendo a rede e “arrumando-a”, os que estão na areia devem encaminhá-la limpa de areia e desembaraçada. a sequência é : rede, reçoeiro. rede no fundo, reçoeiro por cima, entre o traste e a antepara do motor. a rede termina no calão, ao qual é amarrado o reçoeiro. o saco dá uma volta na bica da ré, a que é amarrado para não cair, e vai até ao paneiro da proa.
a equipa da mão de barca trabalha do lado oposto do barco e entre o traste e o paneiro da proa. a cala mão de barca cala é presa ao calão que foi deixado acessível, apesar de se encontrar por debaixo das duas mangas : reçoeiro e mão de barca.
porfiar
quando o saco chega à praia é aberto por uma costura feita com fio mais grosso e fica de “barriga aberta”.
depois da rede seca há um camarada que “dá o porfio”, isto é, volta a fechar o que foi aberto para retirar o peixe.
Estudou nas universidades de Coimbra, Tübingen e Berlim, foi leitora de português na Universidade Técnica de Berlim e professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde ensinou Literatura Alemã e Literatura Comparada. A partir de 1995 passou a dedicar-se exclusivamente à escrita literária. Viveu três anos na Alemanha, dois anos em São Paulo, Brasil, e conheceu Moçambique, onde se passa o romance A árvore das palavras (1997). Foi escritora-residente na Universidade de Berkeley em 2004. É autora de vários livros de ficção, traduzidos em 11 línguas. Foram-lhe atribuídos os seguintes prémios: por duas vezes o Prémio de Ficção do PEN Clube (O silêncio, 1981, e O cavalo de sol, 1989), o Grande Prémio de Romance e Novela da APE (A casa da cabeça de cavalo, 1995), o Prémio Fernando Namora (Os teclados, 1999), o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco (Histórias de ver e andar, 2002), o Prémio Máxima de Literatura (A mulher que prendeu a chuva e outras histórias, 2008), o Prémio da Fundação Inês de Castro (2008), o Prémio Ciranda e o Prémio da Fundação António Quadros (A Cidade de Ulisses, 2011), o Prémio Fernando Namora (Passagens, 2014) e o Prémio Literário Vergílio Ferreira 2017 pelo conjunto da sua obra. Quatro dos seus livros foram adaptados ao teatro e encenados em Portugal, Alemanha e Roménia.Dois dos contos deram origem a curtas metragens e está a ser feita uma longa metragem a partir do romance Passagens.O seu livro mais recente é Prantos, Amores e Outros Desvarios (2016).Vive em Lisboa.
(no mesmo link poderá ser encontrada a lista exaustiva de obras, exposições individuais e colectivas)no dia 9 de fevereiro de 2017, na sala de exposições itinerantes do museu santos rocha, na figueira da foz, teolinda gersão e francisco simões, falaram de arte e mostraram que, por vezes, “é tão bom estar vivo aqui” e assim se registou
a solheira é uma rede de emalhar de 3 panos justapostos – 2 albitanas e um miúdo – ou rede de tresmalho.
o aparelho da solheira é constituído por um determinado número de redes – andares/rações. as malhagens e comprimento total estão definidas no “Regulamento por arte de emalhar”.
de oito em oito andares é lançada uma bóia para marcar a posição e servir assim de referência a outras bateiras ao mesmo tempo que nos dá o alinhamento coma bóia inicial.
os andares têm a correr no cimo um tralho de bóias e no fundo um tralho de chumbo – este de acordo com os modelos mais modernos é constituído por uma corda por dentro da qual corre o próprio chumbo.
assim a rede assenta no fundo e nela emalham os peixes – chocos, linguados e, por vezes sarguetas – dos quais os dois primeiros são os verdadeiros objectos de captura
este vídeo, dos primeiro que fiz, data do de 2010, contou a colaboração do meu amigo alberto trabalhito (trovão) e o necas (já falecido) para um lanço breve e perto do porto de abrigo.
por estranho que pareça queria dedicar este vídeo aos pescadores da torreira e ao necas que , mais que um cão, era um amigo de trovão e da linda.
além de guardar as redes e o barco ainda ia chamar um dos donos quando era preciso, quantas vezes o trovão dizia ao neca “vai chamar a linda” e o mesmo para a linda “vai chamar o trovão” …. e o necas lá ia.
se no filme o ouvimos ladrar é porque vão a passar outros barcos e ele como bom cão de guarda vai avisando que ali é a casa dos donos.
obrigado trovão por me teres levado contigo, obrigado alfredo miranda pela documentação sobre as artes de pesca.
espero ainda publicar mais alguns vídeos só sobre a alagem, com outros pescadores noutras bateiras.
quero que vivam a ria com os sons dela e as gentes que dela tiram sustento