mãos de mar (58)


volto já
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falo-te de um tempo
onde os dias se enroscam
preguiçosos e friorentos
sequiosos de sol
 
vai longe o verão
vão longe todos os verões
 
abraço-me e aqueço-me
sou a lágrima sustida nas cordas
dos cílios teimosos
 
amanhã quando acordar
ainda estarei constipado
nada que adoce a amargura
 
vou ver se roubo umas frases
bonitas e com elas fazer de conta
que sou o que gostava de ser
 
volto já
 
(torreira; o arribar do reçoeiro; 2016)

crónicas da xávega (283)


vou

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falo do incerto
do por vir

todo o início é

teremos o tamanho
dos dias
que fizermos nossos

todo o caminho é

falo dos amigos
e a palavra fica por vezes
somente letras

incertos os dias
o por vir os amigos o caminho
incerto eu

na incerteza de tudo
se abrem os dias
por onde vou vou vou

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(torreira; 2010)

crónicas da xávega (281)


se houver deus

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como se um soldado
desconhecido
perdido nos areais da costa

estreita-se o horizonte
esfumam-se os tempos de fartura

caminha ainda
interrogo-me por quanto tempo

quando já não os houver
erguerão monumentos
escreverão histórias

venderão livros e obras bastas
quando bastava terem feito
tão pouco para que a história
fosse outra

não lhes perdoeis senhor
que quem manda
sempre perdoado é

(espinho; 2012)

“quando o mar trabalha” no programa “pinceladas” da foz do mondego rádio


 

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na foz do mondego rádio, na figueira da foz, conceição ruivo é autora do programa “pinceladas”, espaço áudio onde conversa sobre arte

nos dias 1 e 2 de dezembro de 2018, a conversa decorreu em torno do livro “quando o mar trabalha”

obrigado conceição ruivo por esta oportunidade, obrigado sansão coelho pela coordenação e obrigado foz do mondego rádio pela eficiência e qualidade da produção do registo áudio, de que aproveitei parte para a produção deste vídeo, com algumas das fotos que integram o livro

a conversa pode ser ouvista no vídeo

 

 

crónicas da xávega (278)


auto-retrato (3)

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em cima do barco o ti augusto arruma as mangas

do entretecer dos fios
se faz a corda

aparelha-se o barco

na vida só sei do reçoeiro
a mão de barca
crêem alguns que um dia

aparelha-se o homem

do entretecer dos dias
se faz o tempo

(torreira; 2014)

…………………

notas

reçoeiro – a corda que fica em terra

mão de barca – a corda que o barco trará e fechará o lanço