postais da ria (394)

postais da ria (394)


eternidade breve

o assassínio do futuro
condena-me a conjugar
os verbos no passado
se os nomeio

folhas secas juncam o chão dos dias
inscrevem nomes na memória
povoam o silêncio

estar vivo é saber
da morte dos outros
ser a sua eternidade breve

outra não há

torreira; regata bateiras à vela; são paio; 2013

a beleza do sal (122)


in memoriam luís cardoso

na salina do corredor da cobra (ecomuseu do sal) a alegria, o saber, o amor pelo sal, tinham um nome: luís cardoso.

bom conversador e conhecedor da história e das técnicas de fazer sal, era um excelente guia para quem visitava a salina.

partiu este ano e continua connosco. é esse o mistério da ausência presente, que pessoas como ele nos deixam.

abraço luís, salgado abraço

(este pequeno e mal amanhado registo, com uma nortada forte a perturbar o som, foi feito com o smartphone, em setembro de 2020, naquela que seria a última redura do ano.)

postais da ria (393)


a lama dos dias

lembrados sereis
pelo que não fizestes

fracos heróis
tendes o tamanho da vossa ausência

impossível desfazer o nó 

ao valor do homem
sobrepôs-se o valor das coisas
sinal dos tempos digo

sabedoria antiga de aldeia 
nos meus ouvidos soa
vós é que sabeis

sobre vós a lama no nome
postais do arroz (12)

postais do arroz (12)


arroz, o oiro do baixo mondego (sementeira manual em zona não emparcelada)

falo ainda das mãos
quando tas dou
em silêncio

sim
no silêncio mais íntimo
onde mãos com mãos
se dizem
o que palavras
jamais

falo ainda das mãos
falarei sempre
condenação
de as ter

borda do campo; 2019