plantar uma árvore na ria


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já com sombra, o mestre zé rito e o zé rebelo (dono do barco) trabalham

à terra arrancada
seca cortada afeiçoada

da árvore a memória
reconstruída pelo homem

a reinvenção do barco

à sombra por fim oferta
o homem cresce
vergado ao peso da obra

amanhã vamos plantar
uma árvore na ria

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o zé rebelo aplica gordura para preservar a madeira

(torreira; 26 julho, 2016)

olhei e não vi


olhei e não vi

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olhei e não vi o barco
vi o esqueleto
a madeira

olhei e não vi o estaleiro
vi a areia o sol em brasa
o mestre as ferramentas
o suor no rosto

olhei e não vi nada
não posso ver

olhei só
e lembrei-me de ter visto
o mestre há alguns anos
no estaleiro à beira porta
a fazer o mesmo
construir um moliceiro
mas à sombra de uma rede
a dele

quanto mais olho
menos quero ver

asneira sobre asneira
se constroem os dias
se destrói o sonho
se enterra a memória

não escrevo para que gostem
registo para que se interroguem
passo e não vejo mas olho
e não resisto

até estar de férias aqui
começa a ser complicado
ser cego dói ver dói mais

todo o absurdo aqui é real

(torreira; 18 de julho de 2016)

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o mestre zé rito constrói mais um moliceiro, agora para o zé rebelo. ao lado ” ….O Museu-Estaleiro da Praia do Monte Branco, propriedade da Câmara Municipal da Murtosa,….”

postais da ria (179)


por vezes leio jornais

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cabrita de pé

sei que são muitos
sei que fazem desta arte
modo de vida uns
de sobrevivência outros
de opulência poucos

sei que são muitos
mas que cada um
é um não é todos
sequer muitos
quisera alguns

sei que não sei nada
mas oiço muito
leio um pouco
aprendo todos os dias

sei que nada sei
mas o que não sei
que não sei
é muito mais que
tudo o que sei
e assusto-me
com tanto

sei que eles sabem
sei que se queixam
sei que nada fazem
sei como são

eles também
e há quem saiba muito mais

eu?
eu só tiro fotografias
por vezes leio jornais

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muito dura a arte da cabrita

(torreira; cabrita de pé)

postais da ria (178)


boas fotos

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chegaste agora
não sabes os nomes
não conheces as histórias
trazes contigo uma máquina de fotografar
olhas e encontras o motivo

disparas repetidas vezes
gostas do que viste e registaste
ignoras tudo o que para além do registo
desfrutas do olhar e sorris
quando lês o exif

e se
a perspectiva real for inversa da registada ?
e se
aquele homem ao fundo tiver nome ?
e se
o que ele traz no braço for parco para tantas horas
de esforço quase insuportável ?

e se
em vez de olhares e fazeres (digo eu)
um registo interessante de perspectiva
procurasses respostas para o que registas ?

então
não estarias aqui de férias em busca de imagens
serias mais um na comunidade e isso
meu amigo aqui pode ser perigoso

boas fotos

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(torreira; junho; 2016)

crónicas da xávega (174)


as palavras e as imagens

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o “M. FÁTIMA” novo e a primeira grande pancada de mar

é normal procurar imagens para as minhas palavras, mas a foto de hoje deixou-me sem elas.

há dias assim, de olhar só

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há anos que não fazia uma foto destas. grande barco!

(torreira; 14 de junho de 2016)