postais da ria (172)


os meu amigos da ria

0 ahcravo_DSC_1985_joão magina bw

o meu amigo joão magina

os chocos não conhecem
esta bateira

dizia o joão hoje à tarde

a ria anda assim
o berbigão e ameijoa
onde estão?

o choco não entra
ao norte do porto de abrigo
quantas redes?

até quando a ria?

0 ahcravo_DSC_1985_joão magina

a safar as redes da solheira

(torreira; 15 junho, 2016)

crónicas da xávega (169)


hoje sou puto

(para o meu amigo ricardo)

0 ahcravo_DSC_9570 bw

o ricardo, o sílvio e ao fundo a aurora e a cacilda

continuo a chamar-te puto
e já és maior que eu
mas eu também envelheci
não é puto?

o barco é novo mas nós
conhecemo-nos
no primeiro M. Fátima
e cá estamos

tu feito um homem de mar
eu com a minha máquina
a salgar imagens na memória

olha ricardo
quando digo “puto”
também eu
continuo a pensar
que não envelheci

já lá vão onze anos
puto
onze anos e foi ontem

mas hoje
hoje sou como tu

hoje sou puto

0 ahcravo_DSC_9570

o ricardo e o calão

(torreira; companha do marco; 2016)

os moliceiros têm vela (219)


da memória e das palavras

0 ahcravo_DSC_6132 bw

o ti zé rebeço

olho para a foto do ti zé rebeço e lembro-me dos meus tempos de canalha e de quando ia comprar leite a casa dos pais dele, mesmo em frente à dos meus.

e a palavra “canalha”, lembra-me outra que o meu tio avô, césar gorim, costumava usar numa frase que amiúde lhe ouvia – “são uns garotos” – e que ainda ouço na boca do ti zé rebeço.

na murtosa, quando as pessoas diziam “canalha”, referiam-se à “miudagem” e quando se usava a palavra “garoto”, era para classificar aqueles que usando calças se julgavam homens e faltavam à palavra dada, aldrabavam, enfim…….

hoje, se digo “garoto” refiro-me a um miúdo, e se digo “canalha” é insulto e toda a gente o sabe.

voltando ao ti zé rebeço e à memória de um tempo, usando as palavras dessa época e da terra, queria dizer:

– cada vez há menos canalha por aí e garotos, infelizmente, ainda continuam a abundar
(torreira; regata da ria; 2011)

postais da ria (171)


hoje sou âncora

0 ahcravo_DSC_8806_joão gordo bw

o joão gordo a cirandar

já não procuro as raízes
onde a árvore
encontrou a terra e se fez

bem fundo
na água salobra da ria
no mar da torreira

no nome herdado
não o do cartão
mas a alcunha

mais que cravo
sou gorim

quem se lembra
da ti apolónia
do gorim?

serei o último
nesta terra que os viu nascer
e pouco ou nada
deles sabe

em newark
os cravos gorins são
memória emigrada
os últimos também

hoje sou âncora
varada na areia de uma praia
condenada ao abandono

0 ahcravo_DSC_8806_joão gordo

uma caixa de fruta, o fundo alterado e …. temos uma ciranda e a criatividade do pescador

(torreira; junho, 2016)

cróicas da xávega (168)


0 ahcravo_DSC_9533 bw s

haja mar! temos barco

11 de junho de 2016
o novo M. Fátima
foi pela primeira vez ao mar

longa vida ao barco
sejam fartas as safras
unida a companha

força arrais marco silva
mestre construtor de barcos
e de dias melhores

parabéns
a todos familiares
que neste dia

disseram: presente!

0 ahcravo_DSC_9533 s

um barco que parece voar

(torreira; companha do marco; 2016)

os moliceiros têm vela (218)


assassino

0 ahcravo_DSC_6137_ti abílio bw

pelo mesmo nome responde o homem e o barco

enorme o barco
maior o homem

respondem pelo
mesmo nome
e não sei quem
primeiro foi

se o barco
se o homem

morrerá o barco
com ele o homem

digo então
que quem matar o barco
mata o homem

não importa
se por ignorância
ou incúria

quem o fizer
será sempre

assassino

0 ahcravo_DSC_6137_ti abílio

sempre pronto para a brincadeira, um moliceiro com paixão, o ti abílio

(torreira; regata da ria ; 2011)

postais da ria (170)


0 ahcravo_DSC_8378_cirandar_henrique cunha bw

o ti henrique cunha a cirandar

 

ainda há força nos braços
depois de horas
a arrastar a cabrita pelo lodo

a dança da cabrita
é violenta
o fruto é cada vez menos
abundam as conchas
onde antes bivalves

homens mulheres jovens
mais velhos
todos todos caminham
no lodo
parecendo ao longe
que sobre as águas

é tempo agora de cirandar
depois escolher
e no fim vender ao preço

que o comprador disser

0 ahcravo_DSC_8378_cirandar_henrique cunha

o ti henrique cunha a cirandar

(torreira; junho; 2016)

 

 

crónicas da xávega (167)


o mar tarda

0 ahcravo_DSC_6667 bw

a albina e a aurora aos bordões da mão de barca

o mar tarda este ano
tarda o peixe no saco
tarda o pão na boca

que inverno
depois deste verão
que nunca?

olho-as e penso
mulheres do mar da torreira
que mar é este?

por dentro de mim
corre uma tristeza por tudo
e não há nortada
que limpe o nevoeiro
que carrego

vivo de algumas memórias
outras me matam devagar

o mar tarda e eu

0 ahcravo_DSC_6667

(torreira; companha do marco; 2013)

postais da ria (169)


pai e filho

(ensino-te a arte
que me ensinaram
dou-te o amor
que me deram
de pai para filho)

0 ahcravo_DSC_8384 bw

o nuno (filho) enche a cabrita que o pai (nuno) segura

gostava que houvesse
futuro
por onde os meus olhos
ainda

gostava de te dizer
de pai para filho
deixo-te um amor
uma terra uma gente

mas sei
sinto
que me fico
por estas palavras
por este saber que

não há futuro aqui

0 ahcravo_DSC_8384_nuno+nuno cunha

pai e filho, a mesma arte

(torreira; junho, 2016)

pai e filho têm o mesmo nome, nuno. pai e filho partilham a arte. até quando?

os moliceiros têm vela (217)


QUEM LUCRA COM A REGATA DA RIA?

0 ahcravo_DSC_5985 bw

a regata da ria, a mais importante das 3 regatas de moliceiros que se realizam todos os anos, envolve 3 “actores”:

1 – o promotor da regata (que a financia)

2 – o organizador da regata (que paga os seguros, um almoço e um jantar aos moliceiros, as taças e distribui os prémios pecuniários)

3 -os moliceiros (pagam as despesas de manutenção dos barcos- pintura de painéis e reparações para a regata, custos que não são cobertos na totalidade pelos valores que recebem do organizador)

ou seja, o promotor dá dinheiro ao organizador, que paga aos moliceiros.

o interessante no meio deste processo é que quem organiza, gasta pouco e ganha muito –  DA REGATA DE 2015 AINDA CONTINUA A HAVER DINHEIRO POR PAGAR AOS MOLICEIROS – e os  moliceiros, gastam muito e ganham pouco.

será que ninguém vê isto? será justo? o que podem os moliceiros fazer para que as coisas passem a ser ao contrário: quem gasta pouco, que ganhe pouco (a organização), quem gasta muito que ganhe muito (os moliceiros).

será que os promotores não sabem o que se passa? quem é que anda a lucrar com a regata da ria?

os moliceiros é que não.

PAGUEM O QUE DEVEM AOS MOLICEIROS E REVEJAM A DISTRIBUIÇÃO DAS VERBAS

0 ahcravo_DSC_5985

(torreira; regata do s. paio; 2014)