a olhar
mais chaves
que casas
mais portas
que chaves
nem chaves
nem portas
eis-me aqui
a olhar a ria
os amigos
céu aberto
sem casa
sem chaves
sem portas
a olhar

(torreira; safar redes; 2012)
a olhar
mais chaves
que casas
mais portas
que chaves
nem chaves
nem portas
eis-me aqui
a olhar a ria
os amigos
céu aberto
sem casa
sem chaves
sem portas
a olhar

(torreira; safar redes; 2012)
deixa

deixa que as palavras
te procurem
trazidas pelo sentir
de tudo
será poema se for
que isso te não preocupe
deixa que os olhos poisem
sobre tudo em tudo penetrem
e tragam consigo o seres
nada é novo
senão o teu olhar
o teu sentir
o teu dizer
nada acrescenta
a coisa nenhuma
por isso
deixa que as palavras
sejam em ti

(torreira; regata da ria; 2009)
talvez da ternura

talvez a ternura
ti luísa
escrevo com os olhos
ti luísa
da calada a conheci
da nortada mais tarde
falar consigo
é ouvir estórias
tenho saudades
ti luísa
de si e do mar
talvez da ternura
ti luísa talvez

(torreira; 2005)

a fuga ideal
o poema
dobrou-se sobre si
olhou-se pensou-se
disse-se
o poeta deitou-se
adormeceu coberto
de palavras
dormir não é
o melhor remédio
fechar os olhos
é viver por dentro
a fuga ideal de ser

(torreira; 2010)
o beijo

salgados serão
os lábios
se de mar
o beijo

(torreira; pancada de mar; 2016)
existe
existe o tempo
e o lugar onde
habita o infinito
aí os olhos
se fecham
para sentir
uma mulher safa
redes por sobre
o silêncio da ria
existe o tempo
e eu porque aqui

(safar redes; torreira; 2017)
talvez
escolhidos e fixados estão os textos (51)
as fotos:
o livro está pois preso por pontas.
espero que venham a gostar de o ver/ter/ler tanto como eu, e os que comigo estiveram, gostámos de o fazer.
esperemos pelo sol e o mar.
talvez chegue a tempo de ir a banhos.
o meu amigo ti miguel bitaolra

não ti miguel
não nos encontramos mais
você acreditava que ia
não sabia para onde
mas acreditava
eu quando for
vou para o mar onde você
já não estará
sei que que nos encontrámos
no melhor sítio do mundo
o nosso mundo
havia sempre o mar
ti miguel
o ti alfredo a companha
havia ti miguel
havia
os dias passam ti miguel
mas a cada dia
é mais de memória
a minha companhia
(torreira; 2009)

falecido em 2017
para o ti zé rebeço

(eu não estou descalço cravo
uso os sapatos que a minha mãe
me deu quando nasci)
o homem é a ria
o barco
o nome o mesmo
o vício
a casa sobre a água
o chão
às raízes
regressar depois de
ser de novo

(torreira; regata da ria; 2011)
memória de eugénio
rente ao muro
caminha uma sombra
eu para além de mim
sou apenas isso
lembra-te da sombra
em silêncio
branco sobre branco
escreveu o poeta

(torreira; safar redes; 2013)