o sonho é bandeira

será sempre o sonho
que construirá a realidade
é esta a bandeira do ano
por ela estamos aqui
sonhemos então

(torreira; regata s. paio; 2010)
o sonho é bandeira

será sempre o sonho
que construirá a realidade
é esta a bandeira do ano
por ela estamos aqui
sonhemos então

(torreira; regata s. paio; 2010)
2018 na ti rosa

ti rosa de avanca
há quem encha
os olhos de mar
e por isso exista
há quem traga
o mar nos olhos
e isso lhe baste
é a ti rosa
sento-me num banco
encontro amigos
trocam-se cervejas
uma garrafa de água
não me esqueço de ti massa
voam conversas jornais
cartas e dominó
na ti rosa
há mar em terra
e uma figueira
na ti rosa em 2018
tá combinado

ti rosa de avanca
(torreira; à porta da ti rosa de avanca)
não é fácil
escrevo a direito
por isso recebo tantas
respostas tortas

quando a companha é a família
(torreira; cirandar; 2016)
sonho
que me lembrem
pelo que fiz
não pelo que fui

aparelhar
(torreira; 2016)
essencial o homem

o moliceiro “Dos Netos”
por sobre o espelho
da ria o moliceiro
desliza à força da vara
em dias sem vento
ou de passagem de modelos
de nada serve a vela
fica o mastro a falar dela
essencial o homem
é a força de ser ainda o barco
a bandeira erguida
de uma terra que se busca
num tempo onde ainda não se sabe
se perdida por falta de raízes
numa suposta ria encanada
na cidade
há uns barcos que se fazem
passar por
essencial o homem
desmente-os

o moliceiro “Dos Netos”
(torreira; regata do s. paio; 2010)
‘miga
hoje no mercado de buarcos
fui abraçado por uma palavra
‘miga
conheci-a em setúbal
no bairro das fontaínhas
onde murtoseiros pescadores
quando a ouço regresso
aos tempos de eu menino
às vozes que pela ladeira
‘miga
diziam antes de começar
qualquer conversa
tempo em que todos
eram amigos e camaradas
por isso entre pescadores
‘miga
mais que a ouvir senti-a
há palavras assim
que nos chegam como se
um abraço

a bela e o jim cirandam berbigão
(torreira; cirandar)
olha as mãos
no princípio eram as mãos
ferramentas únicas
alfabeto de gestos e sinais
do dizer ao fazer
tudo por elas era
vê como falam as mãos
como quebram o silêncio
atenta nelas e ouve
encontrarás nas mãos as respostas
para as perguntas que não fizeste
nelas tudo é claro e transparente
olha as mãos
como se um outro corpo
e não o são

(torreira; 2016)
até um dia

por sob a claridade
habitam o silêncio
o obscuro domínio
(diria eugénio)
refúgio de
ratos e similares
alimentam-se bem
do outro e do seu esforço
caminham seguros
mandam e desmandam
mais que fazer
fazem-se
até um dia

(torreira, cirandar, 2016)
moliceiro

o tempo os homens as artes
memória
a árvore legada raiz
bandeira
um barco um nome
a terra
numa só palavra tanto
moliceiro
onde não há cultura não há
futuro
um sonho pode morrer assim

(torreira; s. paio; 2017)
então farão postais

vêm de longe as vozes
conheci algumas
respeitei muitas
conheci-os um pouco
homens mulheres
gente desta terra
de onde sempre
para o mar se partiu
e onde nem sempre
se regressou
ficou o mar
na areia varados
o barco e a arte
a companha renovada
até um dia
em que na praia vazia
deles só a areia
se lembrará
então farão postais

(torreira; 2016)