escrever
escrever o que sinto
até
sentir o que escrevo
é neste labor
que os dias
se fazem maiores

(torreira; safar redes; 2013)
escrever
escrever o que sinto
até
sentir o que escrevo
é neste labor
que os dias
se fazem maiores

(torreira; safar redes; 2013)
ser sem o outro
por dentro dos dias
sempre por dentro dos dias
abrir os braços aceitar
aprender com o tempo
saber cortar
o que de podre nele
numa outra mão os dedos
prendem o que de são
o esquecimento chega
como se uma manhã súbita
não és outro
és sem o outro

(torreira; remendar rede)
a arte da fuga
a arte da fuga
não é exclusiva
de banqueiros
que o digam
os homens e as mulheres
do mar
a diferença
é que os primeiros fogem
com o que é dos outros
os segundos para salvar
o que de pouco têm
a vida e a roupa do corpo

(torreira; arribar; 2016)
o sonho é bandeira

será sempre o sonho
que construirá a realidade
é esta a bandeira do ano
por ela estamos aqui
sonhemos então

(torreira; regata s. paio; 2010)
2018 na ti rosa

ti rosa de avanca
há quem encha
os olhos de mar
e por isso exista
há quem traga
o mar nos olhos
e isso lhe baste
é a ti rosa
sento-me num banco
encontro amigos
trocam-se cervejas
uma garrafa de água
não me esqueço de ti massa
voam conversas jornais
cartas e dominó
na ti rosa
há mar em terra
e uma figueira
na ti rosa em 2018
tá combinado

ti rosa de avanca
(torreira; à porta da ti rosa de avanca)
não é fácil
escrevo a direito
por isso recebo tantas
respostas tortas

quando a companha é a família
(torreira; cirandar; 2016)
sonho
que me lembrem
pelo que fiz
não pelo que fui

aparelhar
(torreira; 2016)
essencial o homem

o moliceiro “Dos Netos”
por sobre o espelho
da ria o moliceiro
desliza à força da vara
em dias sem vento
ou de passagem de modelos
de nada serve a vela
fica o mastro a falar dela
essencial o homem
é a força de ser ainda o barco
a bandeira erguida
de uma terra que se busca
num tempo onde ainda não se sabe
se perdida por falta de raízes
numa suposta ria encanada
na cidade
há uns barcos que se fazem
passar por
essencial o homem
desmente-os

o moliceiro “Dos Netos”
(torreira; regata do s. paio; 2010)
‘miga
hoje no mercado de buarcos
fui abraçado por uma palavra
‘miga
conheci-a em setúbal
no bairro das fontaínhas
onde murtoseiros pescadores
quando a ouço regresso
aos tempos de eu menino
às vozes que pela ladeira
‘miga
diziam antes de começar
qualquer conversa
tempo em que todos
eram amigos e camaradas
por isso entre pescadores
‘miga
mais que a ouvir senti-a
há palavras assim
que nos chegam como se
um abraço

a bela e o jim cirandam berbigão
(torreira; cirandar)
olha as mãos
no princípio eram as mãos
ferramentas únicas
alfabeto de gestos e sinais
do dizer ao fazer
tudo por elas era
vê como falam as mãos
como quebram o silêncio
atenta nelas e ouve
encontrarás nas mãos as respostas
para as perguntas que não fizeste
nelas tudo é claro e transparente
olha as mãos
como se um outro corpo
e não o são

(torreira; 2016)