moliceiro

olhar-te
é ver-me

(torreira; s. paio; 2014)
moliceiro

olhar-te
é ver-me

(torreira; s. paio; 2014)
o meu tempo

o meu tempo
é todos os tempos
fazemo-nos
ontem que relembro
para me alimentar
hoje onde sou para ter sido
e ajo para que
amanhã seja eu ontem ainda
futuro a que acrescentei
o meu tempo
o tempo que fiz
o tempo que me fez
o tempo que não deixei
que se fizesse sem mim

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2013)
da vida

o que não presta
nunca prestou
se hoje te desilude
foi porque te enganou

(corrida chinchorros; s. paio; 2016)
procura

procura nas minhas palavras
não a verdade absoluta
mas a verdade sentida e clara
sem mistificações nem falsidades
sou o que digo
embora possam de mim dizer
o que por bem entenderem
se o leitor fosse o escritor
o que escreveria?
(torreira)
(in)vivências

do que teve azar ao jogo
têm pena
e foi porque quis
do que teve azar na vida
desdenham
e foi porque o traíram
(torreira; corrida de chinchorros; 2016)
regresso ao início

safar redes
de todos os passos
não renego um
sou todo neles
o que sou é o ter sido
não gostaria de ser outro
seria de novo
para ser hoje

(torreira; porto de abrigo)
a arte da fuga

no pais das maravilhas
leio muito vivo tudo
depois queixo-me
mas a culpa é minha
ainda não aprendi
a arte da fuga
(arribar; torreira; 2016)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
(torreira; 2017)
2016 foi o último ano que fotografei o mar da torreira, é da ordem natural das coisas haver um princípio e um fim em tudo.
do primeiro ano não me lembro, mas o último sei que foi 2016.
o vídeo que hoje publico representa o momento mais alto de muitos anos passados na praia da torreira. em 2006 publiquei-o, gravei-o em dvd, projectei-o no clube marítimo da torreira, no salão, que se encheu para o ver e ouvir os poemas que consegui dizer. não esqueço a presença do ti manel murta que, de muletas, demorou cerca de uma hora desde sua casa até ao salão, para ver o filme.
devo muito a muitos e continuo a considerar-me mais um, entre aqueles a quem trato pelo nome e me merecem o maior respeito.
10 anos depois dessa exibição e mais de 30 depois de ter tirado algumas das fotos que nele podem ser vistas, é este o momento de o divulgar mais amplamente. é o momento de abraçar quem durante tantos anos me abraçou.
não esqueço, não esquecerei nunca que os meus antepassados foram homens de mar, pescadores da xávega da torreira e da ria de aveiro.
os amigos que em 2006 compraram o filme que não me levem mal, mas o que sei hoje na altura não sabia. de qualquer modo o vídeo que possuem em dvd é mais completo que este.
é gente da torreira que, viva ou não, aqui fica. são pedaços de vida, da minha também, que ficarão durante algum tempo, nada é eterno e o tempo é sempre escasso, ao dispôr dos que um dia quiserem saber como era e dos que se quiserem lembrar dos seus tempos de juventude.
em especial ao meu arrais, joão da calada, e a todos um abraço amigo do cravo.
(figueira da foz; 22 de agosto de 2017)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira