os moliceiros têm vela (257)


gosto de moliceiros

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à janela o gato
olha e lambe os bigodes
recorda os tempos duros
da rua do não saber quando
do passar mal

arriscou sofreu
ganhou
não esqueceu
mas cansou
olha só

à janela o gato
quantos à janela?

não gosto de gatos
e gostos não se discutem

gosto de moliceiros
e da garra com que alguns
se fazem do tamanho do barco
porque são maiores
e não conhecem janela onde

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(regata da ria; 2010)

crónicas da xávega (196)


tudo é nada

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quando tudo acaba
o que começa?

quando o ter sido
não voltará a ser
o que resta?

quando o barco
vencer o mar
nem sempre os homens
se vencem

no fim do fim
não serei nada

encontrei
uma concha na areia
no recuar da onda
peguei nela
senti-lhe a leveza
na palma da mão

tudo era eu
tudo é nada

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(torreira; 2016)

postais da ria (207)


porquê

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faz um dia do teu tamanho
depois deixa-o crescer
e vai com ele
ao encontro do sol

há aves poisadas na ria
são barcos com homens
velas ao vento braços abraços
vencidos cansaços
dos dias cinzentos baços

o que vai em último
vai também
e isso faz dele
um primeiro diverso
o que resiste

faço o dia com
o meu tamanho
encho-o com uma
única palavra

porquê

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(torreira; s. paio; 2014)

mãos de mar (17)


estranho sabor

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as mãos acabam
onde tudo começa
ou será o contrário?

na areia da praia
à torreira do sol
ardem palavras

uma gaivota passeia nas redes
faz a última limpeza
come

as mãos continuam
o princípio e o fim
no côncavo da palma

cheguei de mãos vazias
parto de mãos amargas
estranho sabor

a gaivota levantou voo
juntou-se ao bando

por momentos existimos

(torreira)

postais da ria (206)


para o meu amigo fernando nuno

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por que mares andaste fernando?
quantos navios?
quantas safras?
quantos comandantes?
quantos países?

quantas vezes mestre?
quanto aprendeste?
a quantos ensinaste?

pescador da torreira
é pescador de todos os mares
que da ria só embalo
não ganho que baste

no safar das redes
não safas a vida
alguém safará?

as histórias muitas
de teres sido e como tu tantos
enchem as horas da espera
de haver uma vaga
de chegar a idade da reforma
de partir ou ficar

na ria não se faz vida
pois não zé?

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(torreira; 2009)

5as de leitura com isabel rio novo e paulo m. morais


paulo e isabel ou isabel e paulo

paulo e isabel ou isabel e paulo

mais uma 5ª de leitura na biblioteca municipal da figueira da foz, ponto de encontro com autores que ainda não lemos, motivo para os ler ou revisitar os já lidos. viagem outra, por vezes, ao de dentro dos autores.

sempre, mas sempre o prazer de estar com quem escreve as palavras que nos seduzem impressas em livro.

(Isabel Rio Novo nasceu no Porto.

Doutorada em literatura comparada, é docente no ensino superior de Escrita Criativa e outras disciplinas nas áreas da literatura e do cinema.

Autora de várias publicações no âmbito dos estudos intermédia, das literaturas portuguesa e francesa e da teorização literária, já integrou o júri de vários prémios literários e de fotografia.

Gosta de dizer poesia, embora não a escreva.

Como ficcionista, começou a publicar dispersamente desde a adolescência.

Em 2004, escreveu a novela O Diabo Tranquilo, em colaboração com o poeta Daniel Maia-Pinto Rodrigues.

Em 2005, viu o romance A Caridade distinguido com o Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes.

Em 2014, publicou o volume de contos Histórias com Santos.
O romance Rio do Esquecimento, finalista do Prémio LeYa 2015, foi editado pela Dom Quixote.

http://escritores.online/escritor/isabel-rio-novo/
Paulo M. Morais nasceu em fevereiro de 1972.

Cresceu nos arredores de Lisboa entre futebóis de rua, livros de aventuras e matinés de filmes clássicos.

Licenciou-se em Comunicação Social e cumpriu um sonho de juventude ao fazer crítica de cinema. Depois pôs uma mochila às costas e fez uma viagem à volta do mundo. No regresso, especializou-se em textos sobre gastronomia e turismo, foi pai de uma menina e plantou um pessegueiro.

Atualmente trabalha na tradução de romances e livros de não-ficção. Vive apaixonado pelo ofício de descobrir histórias e imaginar personagens.

Em 2013, publicou «Revolução Paraíso» (Porto Editora), romance passado no pós-25 de Abril. Seguiu-se a distopia «O Último Poeta» (Poética Edições), em 2015. Nesse mesmo ano foi finalista do Prémio LeYa com «Seja Feita a Sua Vontade», novela ainda inédita, pois acabaria por ver publicado primeiro o livro «Uma Parte Errada de Mim» (2016, Casa das Letras), que junta memórias autobiográficas e reflexões sobre a vida ao relato do tratamento de um linfoma.

http://escritores.online/escritor/paulo-m-morais/)

o registo

crónicas da xávega (195)


até um dia

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tudo fica agora longe
próximas
as imagens as memórias
o sentir ainda

descrevo o que vejo
ou sinto quando olho
e escrevo porque

as palavras
crescem da imagem
como da terra a árvore

e eu
eu sou ainda
o que não vai haver

parado num tempo
em que fui demais
para não voltar a ser

espero-vos
onde a espuma
adormece na areia
e há sempre esperança
de haver mar

até um dia

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(torreira; 2011)

mãos de mar (16)


para o menino bonito

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o meu povo trabalha duro
não tem tempo para brilhantinas
ordenados milionários
viagens em classe executiva

o meu povo
os copos que bebe
saem-lhe do corpo e sabem a sal

o meu povo
tem direito a ser respeitado
por todos
em especial pelos gravatinhas
que não o conhecem
nem falam a sua língua

o meu povo
respeita todos os povos
porque todos os povos
são o meu povo

o meu povo
tem a sabedoria dos dias de parca paga
que reparte com as mulheres
e os filhos

o meu povo
está cansado de meninos bonitos
com muita escola e poucos princípios

o meu povo
convida o menino bonito
para um dia de trabalho