balanço

deito-me cansado
de tudo
olho-me ao longe
no ter sido
estranho serem minhas
as palavras
quem era eu que me
não sei

(torreira; 2013)
balanço

deito-me cansado
de tudo
olho-me ao longe
no ter sido
estranho serem minhas
as palavras
quem era eu que me
não sei

(torreira; 2013)
meditação com a ria em fundo

o ti zé rebeço, homem da ria
quem sou fez-se
quem me fez
não sei se o sabe
vou rente ao mar
enterro na areia os pés
equilíbrio precário
porém seguro e firme
crescemos aprendendo
dolorosamente por vezes
o cuidado no colher
da rosa
é evitar os espinhos
se visíveis forem

ti zé rebeço, a ria como casa
(torreira; regata de bateiras à vela; s. paio ; 2013
nós

não há geografia
que mate os afectos
impossível desatar
nós ancestrais
entrego-me nas mãos
do tempo e sou
(torreira; 2010)
olhares cegos

será negra a noite
mas nela encontrarás luz
suficiente
entre noite e noite
muitas cores povoarão
o dia e o teu registo
mas
a cor do dinheiro
ficou esquecida
nos teus postais
olha como quem vê
não como quem ignora
(torreira; safar redes; 2016)
lembrando joaquim namorado
fraca gente
escondem o rosto
o dizerem-se
quantos por detrás
nunca se sabe
muitos o silêncio
encobrir pode
na ânsia de insultar
rebaixam o nome
da terra das gentes
deixam como vermes
rasto peçonhento
fraca gente esta
vontade de a sacudir
como a areia das redes

o sacudir do saco
(torreira; 2015)
tão só

durante anos
registou as vozes
do vento
quando morreu
abriram o livro
as folhas voaram
um sopro de vento
tão só

(torreira; regata s. paio; 2018)
#elenão

queremos paz um mundo
limpo de fome e guerra
o fim de toda a agressão
#elenão
a tua mão na minha
não importa a cor
o sexo a religião
#elenão
a tua diferença
ser a nossa igualdade
o direito de ser
a nossa razão
#elenão
a queda das fronteiras
de todas as barreiras
o fim da solidão
#elenão
estejas onde estiveres
sejas quem fores
só conhecermos
a palavra irmão
#elenão
(torreira; corrida de chinchorros; 2012)
um barco

o corpo
o mar
o prazer
as ondas
um barco

(praia de mira; 2010)

talvez
como eu gosto desta palavra
talvez
porque não tenho certezas
ai de quem as tem
talvez
outro corpo noutro lugar
talvez
talvez
tudo pudesse ser diverso
talvez
talvez a música
talvez
(coimbra; 2014)
encontro

encontrei-me comigo
e sorri
era eu
nunca deixara de o ser
(torreira; o amarrar da manga; 2012)