mãos de mar (3)


mãos de dar

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não
não me arrependo
de serem de dar as mãos
que me deram

nos cotos
dos braços que me levaram
outras mãos nasceram
para continuarem a dar

haverá amargura
por dentro dos dias agora
mas brilha nos olhos
o sol de sempre

o tempo
que nunca caberá nas mãos
é oferta impossível

usaram-no mal

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(torreira; 2016)

a beleza do sal (3)


hoje

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diz- se “enfeitar”

hoje morreu leonard cohen
hoje está frio
hoje ainda estou vivo
hoje a mãe fez 92 anos
hoje comi 4 castanhas

hoje é sexta-feira
hoje fui a coimbra
hoje comprei um frigorífico
hoje estive com amigos
hoje recebi uma tela uma prenda

hoje morreu leonard cohen
hoje é mais um dia
hoje está quase a acabar

hoje nasceu muita gente
hoje morreu muita gente
hoje foi mais um dia

hoje a beleza do sal
continua
hoje não se faz sal

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diz-se “enfeitar”

(morraceira; 2016)

os moliceiros têm vela (237)


falo do moliceiro

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um barco
não tem raízes
é raiz

navega memórias
redesenha silêncios
inventa futuros

o homem criou o barco
e nele se enraizou
para fazer a viagem

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(torreira; regata do s. paio; 2016)

fotografar moliceiros de dentro de um moliceiro é viver mais a fotografia