
como se numa dança
por entre as mãos
se faz o caminho da rede
(torreira; 2016)
torreira
postais da ria (208)
o grito por dentro

como se nada
ninguém
o olhar embebeda-se
de tanto
homem e mulher
camaradas
homem e mulher
um barco
uma arte
a vida da ria
homem e mulher
quantas vezes
tão pouco
para tanto
o silêncio
é um barco sem gente
oiço o grito
mais ninguém?

(torreira; o alar da solheira)
os moliceiros têm vela (257)
gosto de moliceiros

à janela o gato
olha e lambe os bigodes
recorda os tempos duros
da rua do não saber quando
do passar mal
arriscou sofreu
ganhou
não esqueceu
mas cansou
olha só
à janela o gato
quantos à janela?
não gosto de gatos
e gostos não se discutem
gosto de moliceiros
e da garra com que alguns
se fazem do tamanho do barco
porque são maiores
e não conhecem janela onde

(regata da ria; 2010)
crónicas da xávega (196)
tudo é nada

quando tudo acaba
o que começa?
quando o ter sido
não voltará a ser
o que resta?
quando o barco
vencer o mar
nem sempre os homens
se vencem
no fim do fim
não serei nada
encontrei
uma concha na areia
no recuar da onda
peguei nela
senti-lhe a leveza
na palma da mão
tudo era eu
tudo é nada

(torreira; 2016)
postais da ria (207)
porquê

faz um dia do teu tamanho
depois deixa-o crescer
e vai com ele
ao encontro do sol
há aves poisadas na ria
são barcos com homens
velas ao vento braços abraços
vencidos cansaços
dos dias cinzentos baços
o que vai em último
vai também
e isso faz dele
um primeiro diverso
o que resiste
faço o dia com
o meu tamanho
encho-o com uma
única palavra
porquê

(torreira; s. paio; 2014)
mãos de mar (17)
estranho sabor

as mãos acabam
onde tudo começa
ou será o contrário?
na areia da praia
à torreira do sol
ardem palavras
uma gaivota passeia nas redes
faz a última limpeza
come
as mãos continuam
o princípio e o fim
no côncavo da palma
cheguei de mãos vazias
parto de mãos amargas
estranho sabor
a gaivota levantou voo
juntou-se ao bando
por momentos existimos
(torreira)
os moliceiros têm vela (256)
palavras poucas

chamam-lhe recachia
apenas para vos dizer
continuo ainda
mas
estou cansado
de ser d. quixote

chamam-lhe recachia
(regata da ria; 2010)
postais da ria (206)
para o meu amigo fernando nuno

por que mares andaste fernando?
quantos navios?
quantas safras?
quantos comandantes?
quantos países?
quantas vezes mestre?
quanto aprendeste?
a quantos ensinaste?
pescador da torreira
é pescador de todos os mares
que da ria só embalo
não ganho que baste
no safar das redes
não safas a vida
alguém safará?
as histórias muitas
de teres sido e como tu tantos
enchem as horas da espera
de haver uma vaga
de chegar a idade da reforma
de partir ou ficar
na ria não se faz vida
pois não zé?

(torreira; 2009)
crónicas da xávega (195)
até um dia

tudo fica agora longe
próximas
as imagens as memórias
o sentir ainda
descrevo o que vejo
ou sinto quando olho
e escrevo porque
as palavras
crescem da imagem
como da terra a árvore
e eu
eu sou ainda
o que não vai haver
parado num tempo
em que fui demais
para não voltar a ser
espero-vos
onde a espuma
adormece na areia
e há sempre esperança
de haver mar
até um dia

(torreira; 2011)
mãos de mar (16)
para o menino bonito

o meu povo trabalha duro
não tem tempo para brilhantinas
ordenados milionários
viagens em classe executiva
o meu povo
os copos que bebe
saem-lhe do corpo e sabem a sal
o meu povo
tem direito a ser respeitado
por todos
em especial pelos gravatinhas
que não o conhecem
nem falam a sua língua
o meu povo
respeita todos os povos
porque todos os povos
são o meu povo
o meu povo
tem a sabedoria dos dias de parca paga
que reparte com as mulheres
e os filhos
o meu povo
está cansado de meninos bonitos
com muita escola e poucos princípios
o meu povo
convida o menino bonito
para um dia de trabalho