existe
existe o tempo
e o lugar onde
habita o infinito
aí os olhos
se fecham
para sentir
uma mulher safa
redes por sobre
o silêncio da ria
existe o tempo
e eu porque aqui

(safar redes; torreira; 2017)
existe
existe o tempo
e o lugar onde
habita o infinito
aí os olhos
se fecham
para sentir
uma mulher safa
redes por sobre
o silêncio da ria
existe o tempo
e eu porque aqui

(safar redes; torreira; 2017)
talvez
escolhidos e fixados estão os textos (51)
as fotos:
o livro está pois preso por pontas.
espero que venham a gostar de o ver/ter/ler tanto como eu, e os que comigo estiveram, gostámos de o fazer.
esperemos pelo sol e o mar.
talvez chegue a tempo de ir a banhos.
o meu amigo ti miguel bitaolra

não ti miguel
não nos encontramos mais
você acreditava que ia
não sabia para onde
mas acreditava
eu quando for
vou para o mar onde você
já não estará
sei que que nos encontrámos
no melhor sítio do mundo
o nosso mundo
havia sempre o mar
ti miguel
o ti alfredo a companha
havia ti miguel
havia
os dias passam ti miguel
mas a cada dia
é mais de memória
a minha companhia
(torreira; 2009)

falecido em 2017
para o ti zé rebeço

(eu não estou descalço cravo
uso os sapatos que a minha mãe
me deu quando nasci)
o homem é a ria
o barco
o nome o mesmo
o vício
a casa sobre a água
o chão
às raízes
regressar depois de
ser de novo

(torreira; regata da ria; 2011)
memória de eugénio
rente ao muro
caminha uma sombra
eu para além de mim
sou apenas isso
lembra-te da sombra
em silêncio
branco sobre branco
escreveu o poeta

(torreira; safar redes; 2013)
meditação
dizes
só me insulta
quem eu quero
digo
só me magoa
quem menos espero

(torreira; 2009)

olhar é sentir

todos os dias assisto
a uma sessão privada
de cinema
o filme da minha vida
passa e repassa
vejo e revejo-o
todos os dias
o filme é diferente
como eu o sou
olhar é sentir
e nunca se olha
da mesma forma

(torreira; regata da ria; 2010)

eis a mulher da ria
eis a mulher da ria
a mãe a camarada
seja hoje dela o dia
canto nela o serem
muitas as que
ombro com ombro
braço com braço
nas bateiras
são camaradas
do seu homem

(torreira; 2009)
vejo sinto sou
talvez não fosse uma maçã
pode até nem ter havido paraíso
nem adão nem eva nem deus
cada um acredita no que quer
mas há a moeda
o fmi o bce o dólar o euro
o bitcoin pasme-se
há o homem e o fascínio
das moedas todas
lhe poderem dar tudo
talvez não exista céu nem anjos
nem inferno nem diabo
mas existe a ganância a cegueira
a lágrima a mágoa a alegria
a revolta a aceitação a ignorância
a fome o desperdício o luxo
existe ainda a propriedade
e os homens impróprios
isto não é crença é facto
e sei que existo eu
a questionar tudo isto
porque vejo sinto sou

carregar o saco na zorra
(torreira; 2012)