auto-retrato

ganhar o mar
aprumadas raízes
frondosos ramos
como é difícil
ser árvore no mar
(praia de mira; 2010)
auto-retrato

ganhar o mar
aprumadas raízes
frondosos ramos
como é difícil
ser árvore no mar
(praia de mira; 2010)
da companha

quinhões ou tecas
o sal do rosto
tempera o quinhão
(praia de mira; 2009)
todo o tempo

o carregar do saco
olhar os rostos
lembrar os nomes
dizê-los
os amigos vêm
pela mão
das palavras
pelo olhar
que os resgata
todo o tempo
é agora
(torreira; 2012)

o ti américo, numa ida ao mar em 2011, o primeiro ano em que trabalhou na torreira
a 23 de outubro de 2009, participei no museu de ílhavo, num colóquio que tinha por título “Falas do mar/Falas da ria”, aí se questionou o porquê de serem conhecidas tantas falas dos trabalhadores da terra e não serem muito conhecidas falas de pescadores..
no dia 18 de novembro, num espectáculo intitulado “Quando o homem lavrava o mar”, realizado na sala dos “caras direitas”, na figueira da foz, passou um registo fílmico sobre o alar manual das redes das traineiras, e era perfeitamente audível a fala/canto com que os pescadores marcavam o ritmo da alagem.
em 2016, pedi ao ti américo, pescador de esmoriz mas a trabalhar na torreira, na altura com 78 anos como refere no video, que cantasse como o fazia no tempo em que, “puto” ainda”, ia ao mar.
não fica letra completa, mas fica o que a memória preservou
disseram-me alguns pescadores que era hábito, quando iam ao mar, entoar o padre nosso cantado de acordo com o ritmo dos remos, não consegui porém, na torreira, recolher qualquer registo.
este é o único que consegui até hoje. e vale muito.
obrigado ti américo
(torreira, 18 de agosto de 2016)
mais um

o arribar da manga do reçoeiro
o que fui
leva pela mão
quem sou
olhos meus
sempre
até quando
o mar as gentes
os rostos
os gestos as artes
mais um
(leirosa; 2017)
pescador

não saber onde
ignorar o quê
crescer para
ser maior que
vencer o mar
ganhar terra

(torreira; 2010)
santa ignorância

o sacudir do saco
espanta-me a ignorância
dos que sábios se dizem
predicando asneiras
como se verdades porque
por si proclamadas
assusta-me a velocidade
com que o erro se propaga
pela mão desta gente
o que foi já não é
santa a ignorância
que constrói os dias
(torreira; 2011)
viagem

a mulher, a muleta, o arinque, o barco adivinha-se, o mar sente-se
olho e sinto
como se hoje
a caminhada começa
pelo fim
que pernas estas
os olhos
por que caminhos
me levam
o sentir
as palavras
vou e fico
viajo em mim
(torreira; 2009)
caso perdido

sei que não saberás
onde estás quando
te derem por perdido
não saberás
como nunca soubeste
de tão perdido teres
andado sempre
talvez sejas
um caso perdido
(torreira; 2013)
balanço

deito-me cansado
de tudo
olho-me ao longe
no ter sido
estranho serem minhas
as palavras
quem era eu que me
não sei

(torreira; 2013)