viagem

a mulher, a muleta, o arinque, o barco adivinha-se, o mar sente-se
olho e sinto
como se hoje
a caminhada começa
pelo fim
que pernas estas
os olhos
por que caminhos
me levam
o sentir
as palavras
vou e fico
viajo em mim
(torreira; 2009)
viagem

a mulher, a muleta, o arinque, o barco adivinha-se, o mar sente-se
olho e sinto
como se hoje
a caminhada começa
pelo fim
que pernas estas
os olhos
por que caminhos
me levam
o sentir
as palavras
vou e fico
viajo em mim
(torreira; 2009)
caso perdido

sei que não saberás
onde estás quando
te derem por perdido
não saberás
como nunca soubeste
de tão perdido teres
andado sempre
talvez sejas
um caso perdido
(torreira; 2013)
balanço

deito-me cansado
de tudo
olho-me ao longe
no ter sido
estranho serem minhas
as palavras
quem era eu que me
não sei

(torreira; 2013)
nós

não há geografia
que mate os afectos
impossível desatar
nós ancestrais
entrego-me nas mãos
do tempo e sou
(torreira; 2010)
fraca gente
escondem o rosto
o dizerem-se
quantos por detrás
nunca se sabe
muitos o silêncio
encobrir pode
na ânsia de insultar
rebaixam o nome
da terra das gentes
deixam como vermes
rasto peçonhento
fraca gente esta
vontade de a sacudir
como a areia das redes

o sacudir do saco
(torreira; 2015)
um barco

o corpo
o mar
o prazer
as ondas
um barco

(praia de mira; 2010)
encontro

encontrei-me comigo
e sorri
era eu
nunca deixara de o ser
(torreira; o amarrar da manga; 2012)
desafio

todo o desenho
não é mais
que um esboço
quase perfeito
inventar o esboço
é o desafio
mais que perfeito
(costa de lavos; 2017)
stalone

dez réis de gente
de tão leve
partiu já
do mar dos dias
a memória
um nome
peso pesado
para tão pouco
chamavam-lhe
stalone
(torreira; o arribar do calão; 2013;
caminhos

o meu amigo alfredo amaral
os caminhos velhos
de tanto
gastaram-se
porque continuas
a buscá-los se
a viagem é agora
outra
(torreira; 2010)