chama-se marta

como se descobrisse a luz
chama-se marta
faz hoje um mês
é a minha terceira neta
faz hoje um mês
que nasci outra vez

como se o início de tudo
(murtosa; regata do bico; 2010)
chama-se marta

como se descobrisse a luz
chama-se marta
faz hoje um mês
é a minha terceira neta
faz hoje um mês
que nasci outra vez

como se o início de tudo
(murtosa; regata do bico; 2010)
HOMENS

a pancada é dura
sei que antes de entrarem
no barco olham o mar
sei que se benzem
sei que têm fé
sei que precisam de
ir ao marpara ganhar a vida
porque gostam
porque é um desafio
porque são HOMENS

HOMENS
(praia de mira; companha do zé monteiro; 2010)
rapar a ria

com um balde e um pequeno ancinho, na maré vazia, nos cabeços em seco ou com pouca água a cobri-los, apanhava-se a amêijoa japónica, o berbigão.
ao longe, nada mais vês que um casal que parece passear por sobre as águas, povoando o silêncio com as suas vozes, que não ouves mas imaginas
uma paisagem belíssima, um lugar onde o silêncio se ouve e os olhos se limpam da sujidade urbana.
ajoelham-se, pousam o balde, pegam no ancinho e começam a “rapar” a lama da ria. dirias como se batatas, mas aqui, na lama, são amêijoas que colhem.
horas seguidas, tantas quantas a maré permita, que o corpo, esse terá de aguentar.
sobreviver aqui é sobre-utilizar o corpo, desgastá-lo, moê-lo, consumi-lo.
e tudo em silêncio vai pingando para os bolsos dos mesmos, dos que não estão na fotografia.
a japónica deu de comer a muita gente durante dois anos depois, num inverno mais longo e chuvoso, as águas adocicaram e morreu. dela pouco ou nada resta.
os homens e as mulheres, continuam a caminhar e a rapar a ria, são menos, a colheita é pobre, vivem do que a ria ainda dá.

(torreira; 2012)

SONY DSC
é no dar das mãos
que nos fazemos

SONY DSC
(murtosa; regata do bico; 2009)

o stalone, o horácio, o calão, a mão de de barca, a manga
ao fundo virá o saco
no fundo do saco, talvez peixe
se peixe houver, que peixe será
se for do vendável, a como o comprarão, se é que o comprarão
é peixe fresco, é peixe do mar, é suor desta gente
quem o come, come ouro, mas alguns ainda o querem dado. estão de férias e esquecem-se que só o estão, porque lhes pagaram o ano inteiro.
quando aqui chegares traz mais
que uma máquina
um fato de banho
um desejo de sol e mar
traz o entendimento
que esse
nunca o deixes ir de férias

(torreira; companha do marco; 2013)

joão manuel brandão
a arte da cabrita alta

(torreira; 2012)
a vida antes da morte

não me preocupa o que acontece depois de morrermos, preocupa-me sim o como morremos.
no momento em que em portugal se vai discutir a legalização da eutanásia, tudo o que com ela se relacione, nos países onde já é legal, é notícia. infelizmente nem tudo, só aquilo que interessa a quem dominando os meios de comunicação se opõe à sua legalização.
não haverá muitos dias, numa estação de rádio, foi transmitida uma entrevista com uma enfermeira portuguesa a trabalhar na bélgica, que tinha participado numa morte assistida.
a moça estava chocada, disse que se recusava a participar em qualquer outro acto semelhante. relatou que a pessoa em causa, uma mulher, estava lúcida, era saudável, mas “sentia-se só e queria morrer”.
nem a filha a demoveu, e no momento do desenlace despediram-se uma da outra com um
“amo-te”
ora tudo isto aconteceu num “lar de idosos” onde a enfermeira trabalhava, disse.
nunca a ouvi questionar o funcionamento do lar. porque é que num lar uma pessoa se pode sentir só?
se é assim na bélgica, como será em portugal?
assustam-me os lares de idosos, como me assusta o sofrimento que só adia a morte.
preocupa-me que uma pessoa saudável, se sinta só num lar e peça para morrer.
preocupa-me esta sociedade egoísta e cínica que não vê que a maioria dos “lares de idosos” são a prática “piedosa” da eutanásia.
preocupa-me

(torreira; regata do s. paio; 2012)
meditação breve

a fotografia aos fotógrafos
a poesia aos poetas
nada mais vos quero deixar
que a memória das gentes
as palavras do que sinto
sou ou tento ser
tenho a noção
do quão pouco valho
mas não seja por isso
que nada faça
como esta gente que espera
os que ao mar se hão-de fazer
também eu dou o que tenho
sabendo que mesmo pouco
falta fará que seja feito
leio vejo escuto
com nada fico
se tenho dou reparto
migalhas sejam
como estas
pão à mesa de quem
não tem voz

(torreira; companha do marco; 2009)
cheguem os que ao mar vão, que tudo está pronto para a partida e a voz de mando do arrais
boas manel

éramos jovens e cantávamos
mal eu e tu
os artistas eram outros mas a festa
éramos todos
quarenta cinco anos lá vão
regressaram hoje
quando soube que tinhas
não sei como dizê-lo
só sei que não voltarás
a responder-me
sempre que te falar
direi “olá manel”
e só o silêncio do outro lado
começo a ter muitas respostas
de silêncio
mas voltemos à festa ao sermos
jovens e ser verão
haver um monte branco
monte branco mesmo
o francês
os passeios rente à ria
as cantorias com e sem violas
as conversas
quarenta e cinco anos manel
é muito tempo
mas estás agora aqui comigo
em silêncio
enquanto os ouvimos cantar
e tocar
na areia da praia que também
já não é
abraço manel
é bom estar contigo

(ria de aveiro; cais do bico)
a escolha

estar vivo será perigoso
calmo sossegado
é não estar
a escolha não é tua

(torreira; regata do s. paio; 2013)