os moliceiros têm vela (244)


é tempo de moliceiros

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abílio fonseca (carteirista)

há gestos que dão vida
há silêncios que matam
há palavras que assassinam

há homens que se revelam
a cada instante
de uns fica a memória de terem sido
de outros a de serem para sempre

para o ti abílio mais que a palavra
o gesto o abraço o estar aqui
mesmo se retirado

em 2016
o ti abílio salvou-me o ano
que outros mataram

para ele 2017 é pequeno
o tempo todo não chega

é tempo de moliceiros
queiram ou não
será sempre

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80 anos de fibra

(regata do s. paio; 2016)

os moliceiros têm vela (243)


notas de um retirante

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para que conste

em 1999 o mestre zé rito, que tinha o estaleiro ao lado de casa, construiu, a céu aberto num terreno em frente ao estaleiro, o moliceiro “zé rito”.

em 2016, o mestre zé rito construiu, a céu aberto num terreno ao lado do “museu estaleiro do monte branco”, o moliceiro “um sonho”.

evolução? continuidade? o que mudou para que tudo continuasse na mesma.

aqui fica o convite para visitarem o museu estaleiro e aprenderem vendo.

(construção do moliceiro “um sonho”; 2016)

os moliceiros têm vela (241)


reparos de um retirante

“Breve História do Concelho da Murtosa”, autor “Marco Pereira”

(algumas notas breves, precedidas de um sublinhado)

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em qualquer publicação é tão importante a citação como a omissão.

isto dito, e sem retirar valor, nem importância à obra citada, queria deixar 3 notas breves para os desenvolvimentos temáticos futuros:

moliceiros: ainda há moliceiros na ria. é importante fazer a história das regatas e sua importância na dinamização turística temática e preservação do património, único no mundo. os moliceiros tradicionais e os passeios na ria.

companhas: ainda existem companhas activas na torreira. importante referir as que estão em laboração, as que ao longo do século xx trabalharam e as alterações sofridas nos métodos de trabalho: dos bois aos tractores, dos remos aos motores, por exemplo. parece-me importante que seja referido o seu papel na atracção turística temática.

literatura: não consta o nome do dr. Raul Vaz, entre os escritores listados. penso que, enquanto murtoseiro e pela obra produzida, merece lugar de relevo entre os nomeados.

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(foto de 2014)

os moliceiros têm vela (238)


(meditação com moliceiros em fundo)

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filho da mãe

durante muito tempo me interroguei do porquê de a expressão “filho da mãe”, ter um sentido depreciativo.

para mim, ser filho da mãe era tão natural como estar vivo, não há outra forma de ser.

mas o povo, o que nos põe na boca as expressões que usamos, sabe das palavras mais que as letras, vai-lhes ao sentir. era isso que me faltava: sentir.

hoje entendo perfeitamente o significado da expressão e a sua conotação depreciativa, entendo porque senti e sentir é a melhor forma de compreender.

espero que nunca sintam o sentido desta frase e que a digam de forma natural, como o fazem com outra qualquer:

FILHO DA MÃE!

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(torreira; regata da ria; 2011)

os moliceiros têm vela (237)


falo do moliceiro

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um barco
não tem raízes
é raiz

navega memórias
redesenha silêncios
inventa futuros

o homem criou o barco
e nele se enraizou
para fazer a viagem

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(torreira; regata do s. paio; 2016)

fotografar moliceiros de dentro de um moliceiro é viver mais a fotografia

os moliceiros têm vela (236)


o fotógrafo e o moliceiro

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há momentos que dificilmente se repetirão, este é um deles.

éramos 3 dentro do moliceiro, dentro da regata, no meio da ria – eu, o carlos lopes franco e o ti abílio.

o ti abílio tripulava o barco, eu e o carlos, tentávamos captar as imagens possíveis.

foi de loucos. a acção ultrapassava tudo, até um hipotético enjoo do carlos (olha que eu enjoo – tinha-me dito).

não houve tempo para mais nada senão viver o instante.

junto do traste, depois de ter feito o filme possível, que ainda espera edição, fotografava como sabia e o que podia.

neste registo o carlos fotografa o ti abílio – esquecido de tudo o resto -, o ti abílio governa o moliceiro – não pensa em mais nada – e eu fixo o momento.

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(torreira; regata do s. paio; 2016)

2 de agosto de 2016


bem hajas antónio brandão

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nuno cunha e o mestre zé rito fixam a bica do moliceiro

há datas que não são para esquecer, esta é uma delas.

o nuno cunha (setenove) e o mestre zé rito, fixavam a bica da proa do moliceiro. a construção progredia.

eram muitos, como hábito, os que assistiam àquilo a que chamei “celebração da ria”, entre eles alguns dos irmãos “brandão”.

o antónio brandão veio, de repente, ter comigo e disse-me:

– sr. cravo, tenho lá em casa uma caixa que a drª andreia me deu, com desenhos de moliceiros, e que lhe deve interessar.

pegou na bicicleta e, pouco tempo depois, trazia na mão uma caixa branca, de arquivo, que me deu para as mãos.

abri e vi que era a tese de licenciatura, de 1999, da minha amiga andreia leite, falecida aos falecida em 2008, aos 31 anos, de leucemia, e que muito me ajudou nas pesquisas sobre o naufrágio do nathalie. o documento tinha dado origem à tese de mestrado que viria a defender na universidade portucalense.

fiquei sem palavras e só fui capaz de dizer ao antónio:

– guarda-o é uma oferta que deve permanecer na família.

– sr. cravo, dou-lho como se o desse ao meu pai.

os olhos falaram pelos dois, não fui capaz de dizer que não e limitei-me às palavras mais simples:

– nunca me hei-de esquecer deste dia, antónio.

– e eu nunca me hei-de esquecer de si, sr. cravo.

escrevo o que se passou e volto a sentir tudo……..

a memória aqui fica e o testemunho de uma amizade que junta várias.

a construção do moliceiro proporcionou-me um dos momentos mais sentidos em toda a minha passagem pela torreira.

bem hajas antónio brandão

(torreira; 2 de agosto de 2016)