regata moliceiros, s.paio 2015 – o vídeo


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8 de setembro é o dia de s. paio, padroeiro da torreira.

durante uma semana, uma das maiores romarias do país decorre na torreira, com a rua principal cheia de tendas as mais variadas, o parque de campismo cheio e tendas de campismo em terrenos cedidos por particulares.

gente, gente, gente…..

no mar as noites são de festa com todos os bares a funcionar em pleno e espectáculos na praia.

na ria, no fim de semana, sábado e domingo, decorrem 3 regatas:

– chinchorros (a remos)

– bateiras à vela

– moliceiros

o passeio da ria e o “cais do guedes” enchem-se de gente vinda de todo o país. a festa dos barcos é a grande festa desta terra de pescadores.

uma câmara de filmar, na bica da proa do “zé rito”, registou toda a regata e, mais do que isso, toda a actividade dentro do moliceiro que, em 2015, a venceu.

tripulação do moliceiro “zé rito” : mestre zé rito, manuel silva vieira e alfredo miranda

é mais uma memória de um tempo e uma homenagem aos homens que ainda têm a paixão da tradição do moliceiro e, por ele, sacrificam tempo de lazer e despendem as suas economias.

AOS MOLICEIROS, HOMENS E BARCOS!!!!!!!!!!!!!!!!!

os moliceiros têm vela (173)


UM BOM ANO DE 2016

sobreviver

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

o moliceiro “dos netos” do ti abílio carteirista

de velas pandas os dias
seguiram o seu caminho
barcos ante nossos olhos

espanto de ainda por cá
resistir teimoso à chamada
espantoso o ser ainda

um moliceiro voga na ria
quero deixar-vos um ror deles
a encher-vos os olhos

nada mais vos peço que
sonheis com muita força
só assim os moliceiros hão-de

sobreviver

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

a bandeira da pátria dos moliceiros

(murtosa; regata do bico; 2007)

 

à conversa com mestre firmino tavares


dos mestres
na precisão do gesto
a mão o instrumento
o mestre

saberes herdados
na escrita dos dias
trabalhados

vai-se o mestre
fica a obra
diziam

já pouca obra
enquanto nenhuma
digo

é este o meu tempo

(torreira; 2015)

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mestre firmino tavares a trabalhar com o formão na construção do moliceiro marco silva

 

ser mestre, não é só o que hoje se diz dos que obtiveram numa universidade esse grau, é coisa muito mais antiga. de saberes de artes e ofícios, de aprendizagens de anos, de carreiras feitas sob a orientação de um “mestre”, até se atingir a qualidade e a perfeição de execução que aos mestres são exigíveis.

não é tradição dos países do sul da europa este tipo de formação e aquisição de saberes e títulos, que remontam à idade média, mas que se continuam a utilizar em muitos países europeus, começando na frança, o país mais a sul. as antigas escolas industriais preenchiam, entre nós, esta função e nelas se formavam operários especializados que recebiam ensinamentos práticos dos “mestres de oficina”.

enfim, toda uma conversa que haveria/haverá que fazer sobre este tema, mas o que agora e aqui importa é ouver “mestre” firmino tavares, último de uma família de mestres construtores navais de pardilhó, e aprender com ele o como foi, o prazer de ter sido e de ensinar a fazer, fazendo.

falar com o mestre são lições de vida que não me canso de receber. espero que depois de ouvir este breve apontamento, sem pretensões, fiquem mais ricos, como eu fiquei

 

 

 

os moliceiros têm vela (91)


o insuportável peso da luz

assim vejo

assim vejo

o que nos separa é o essencial
isso só se torna evidente se
sobre o branco inscrevermos
o traço exacto das fronteiras
onde os desejos se dividem

fundamental reduzir o acessório
à sua verdadeira dimensão
dispensável

a luz tudo atravessa para se
fazer dia

assim te iludo

assim te iludo

(torreira; regata do s.paio; 2010)

dos moliceiros


outros ...

 

estão ali
deitados
à babugem da maré
no lodo do seco
onde antes areia
água límpida

aguardam
o acordar
o até sempre
a regata
o apodrecimento

a pátria dos moliceiros
mátria não é
cada vez mais nem de carpideira
estatuto terá

estudemos pois
como é nossa tradição
os que vão morrer
a quem só falta o circo
e césar para saudar

(torreira- monte branco)

 

zé rebeço ou a recriação da descarga do moliço


em 2009 surpreendi o sr. josé rebeço, meu vizinho dos tempos de criança, a descarregar uma barcada no cais do bico.

depois de muitos anos emigrado no canadá, de regresso definitivo à murtosa, resolveu reviver os seus tempos de juventude indo à “apanha do moliço”.

só que como já não há moliço, foi apanhar uma alga a que os pescadores chamam “cabelo de cão” e, sozinho, com um pequeno de motor fixo na beirada do moliceiro lá foi.

apanhei-o no acto da descarga. é esse registo que aqui fica.

o atracar

a forquilha

o engaço e a toste

o esforço com o engaço no fazer do monte

o fazer do monte

o moliço (cabelo de cão, que moliço já não há)

uma memória breve do meu tio césar que tanto me marcou:

“dos moliceiros e do moliço, algumas regras e rituais

na ria de aveiro existem algumas ilhas, zonas que se mantêm secas durante todo o ano, dentre estas destacam-se três na zona mais norte: monte farinha, amoroso e testada.

a riqueza das ilhas residia no junco que crescia no seco e no moliço que crescia debaixo de água. na ilha de monte farinha chegou a haver gado, de que se destacava a criação de cavalos.

a ilha do amoroso tinha três sócios, um dos quais era meu tio avô, motivo pelo qual o acompanhei muitas vezes nas viagens que fazia à ilha, para reparações nos canais e manutenção da casa que aí existia e tinha um poço e uma figueira.

para poderem explorar o moliço das zonas submersas da ilha, os proprietários pagavam à capitania uma licença especial, mas só podia apanhar moliço na ilha quem tivesse autorização dos donos. não havia zonas exclusivas para cada barco, toda a zona submersa podia ser explorada.

ao domingo de manhã, depois da missa, vestindo o “fato de ver a deus”, os moliceiros iam a casa do meu tio, responsável pela contabilidade do amoroso, que os aguardava, à porta de casa, com uma garrafa de vinho doce e um cálice, enquanto nas mãos segurava um pequeno saco de pano.

cada moliceiro dirigia-se ao meu tio e dizia: sr. césar esta semana foram “tantas” barcadas de moliço, a “tanto” cada uma dá…. e punham o dinheiro no saco, bebiam um cálice e iam até casa.

era assim até à hora de almoço: encontros de homens de palavra.

foi com estes princípios que fui criado e se tenho, como todos temos, pais biológicos, tenho na ria uma outra família que me educou e de mim fez o homem que sou.”

eu no bico – meados da década de 50 do século passado
(fotografia tirada pelo meu pai, domingos josé cravo)