sem tempo

recriação de um lanço de xávega
é tempo do tempo
depois do tempo
tempo lembrado
onde fui
dentro do que foi
tempo reconstruído
o meu tempo
tempo guardado
tempo oferecido
sem tempo

recriação de um lanço de xávega
(torreira; 2013)
sem tempo

recriação de um lanço de xávega
é tempo do tempo
depois do tempo
tempo lembrado
onde fui
dentro do que foi
tempo reconstruído
o meu tempo
tempo guardado
tempo oferecido
sem tempo

recriação de um lanço de xávega
(torreira; 2013)
vou

falo do incerto
do por vir
todo o início é
teremos o tamanho
dos dias
que fizermos nossos
todo o caminho é
falo dos amigos
e a palavra fica por vezes
somente letras
incertos os dias
o por vir os amigos o caminho
incerto eu
na incerteza de tudo
se abrem os dias
por onde vou vou vou

(torreira; 2010)
presunção

o meu amigo vitó (falecido)
quando eu já cá não estiver
e te sentares numa rocha
à beira mar
talvez te lembres de mim
talvez
(torreira; 2013)
se houver deus

como se um soldado
desconhecido
perdido nos areais da costa
estreita-se o horizonte
esfumam-se os tempos de fartura
caminha ainda
interrogo-me por quanto tempo
quando já não os houver
erguerão monumentos
escreverão histórias
venderão livros e obras bastas
quando bastava terem feito
tão pouco para que a história
fosse outra
não lhes perdoeis senhor
que quem manda
sempre perdoado é
(espinho; 2012)
dos sábios

o alar da manga do reçoeiro
o rigor das palavras
com que lavram o silêncio
desenham as perguntas
(torreira; 2016)
das árvores

o passar da pancada de mar
gosto das árvores
que se tornaram barcos
admiro os homens
que são árvores
dentro dos barcos
(torreira; 2010)
auto-retrato (3)

em cima do barco o ti augusto arruma as mangas
do entretecer dos fios
se faz a corda
aparelha-se o barco
na vida só sei do reçoeiro
a mão de barca
crêem alguns que um dia
aparelha-se o homem
do entretecer dos dias
se faz o tempo
(torreira; 2014)
…………………
notas
reçoeiro – a corda que fica em terra
mão de barca – a corda que o barco trará e fechará o lanço
da companha

quinhões ou tecas
o sal do rosto
tempera o quinhão
(praia de mira; 2009)
todo o tempo

o carregar do saco
olhar os rostos
lembrar os nomes
dizê-los
os amigos vêm
pela mão
das palavras
pelo olhar
que os resgata
todo o tempo
é agora
(torreira; 2012)

o ti américo, numa ida ao mar em 2011, o primeiro ano em que trabalhou na torreira
a 23 de outubro de 2009, participei no museu de ílhavo, num colóquio que tinha por título “Falas do mar/Falas da ria”, aí se questionou o porquê de serem conhecidas tantas falas dos trabalhadores da terra e não serem muito conhecidas falas de pescadores..
no dia 18 de novembro, num espectáculo intitulado “Quando o homem lavrava o mar”, realizado na sala dos “caras direitas”, na figueira da foz, passou um registo fílmico sobre o alar manual das redes das traineiras, e era perfeitamente audível a fala/canto com que os pescadores marcavam o ritmo da alagem.
em 2016, pedi ao ti américo, pescador de esmoriz mas a trabalhar na torreira, na altura com 78 anos como refere no video, que cantasse como o fazia no tempo em que, “puto” ainda”, ia ao mar.
não fica letra completa, mas fica o que a memória preservou
disseram-me alguns pescadores que era hábito, quando iam ao mar, entoar o padre nosso cantado de acordo com o ritmo dos remos, não consegui porém, na torreira, recolher qualquer registo.
este é o único que consegui até hoje. e vale muito.
obrigado ti américo
(torreira, 18 de agosto de 2016)