O Tejo e a poesia – ECOCONSTÂNCIA


o tejo e a poesia

(transcrição da newsletter)

Publicamos hoje uma Folha Informativa dedicada a um passeio no Tejo, na zona de Constância, a Vila Poema.

Trata-se da continuação das anteriores Folhas dedicadas às II Jornadas Europeias do Património e que os nossos colaboradores Ana Paula Pinto e Carlos Vitorino aproveitaram para nos dar conta, a partir de imagens e de textos que reflectem a sua sensibilidade para a importância cultural e turística dos eventos aí ocorridos.

A próxima Folha Informativa será dedicada ao Percurso Camoniano e fechará o ciclo destas II Jornadas Europeias.

 O gabinete de coordenação

(Projecto de candidatura da cultura Avieira a património imaterial nacional e da UNESCO)


Cultura Avieira – Um património, uma identidade

 

FOLHA Nº36_O Tejo e a Poesia – ECOCONSTÂNCIA[1]

 

recordo


reflectindo

 

sentado no banco
da memória
recordo

o brilho nos olhos
as caravelas velas pandas
das navegações sem retorno imaginado
o aroma das anémonas
sem terra à vista

a música a desprender-se
das coisas
sem pauta nem maestro nem instrumentos
a música de dentro
em clave de sol e sonho

braços por dentro de braços
e mais braços ainda
abraços tantos a abraçar

recordo

(ria de aveiro; canal de ovar; torreira; marina dos pescadores)

é urgente


o pescador filósofo

ando por aí
no inventar de caminhos
encontros e desencontros
fabricando sonhos
nas noites diurnas

a acender fogos
no seio das rochas mais frias
para que nasçam rios cheios
de olhos abertos

a plantar árvores
em cima do mar
ver crescerem barcos
onde mais que homens são
os que lá dentro vão

na minha rede só letras
plantadas nos regos abertos pela enxada
desta cabeça imparável

acender lume nas pedras
abrir olhos nos rios

é urgente

(torreira; companha do marco; 2011)

xávega_o aparelhar


o saco

 
barco no mar, barco em terra, trabalho sempre.
 
neste registo podem-se ver as redes sobre a  “zorra” (espécie de maca de madeira, constituída por tábuas pregradas sobre dois rolos atravessados na face inferior), para não se encherem de areia, enquanto se começa a aparelhar o barco.
 
de notar que, neste caso, se começa pelo saco. o falecido arrais zé murta, carrega a extremidade do saco, que depois contornará a bica da ré para ficar abraçado nela.
 
(torreira, companha do murta, 2007)
 

A produtividade e o exterminador


o exterminador insaciável

em nome da produtividade tudo nos leva o exterminador, que homem só não é, mas todo um governo de trogloditas (sabe-me tão bem esta palavra aqui), com infiltrações internacionais.

foram-se feriados, vão-se dias de férias, aumenta-se o horário de trabalho, reduzem-se remunerações … e não há judiciária que chegue para tanto roubo.

mas, falemos de produtividade, não teoricamente mas em termos práticos, através da minha experiência profissional e pessoal.

na década de 90 fui consultor de uma das maiores multinacionais alemãs de confecção têxtil, para a instalação de duas unidades de produção. Criaram-se cerca de 1.500 postos de trabalho, com recurso a todos os fundos comunitários possíveis.

os trabalhadores, na sua maioria mulheres, foram recrutados entre jovens sem qualquer experiência industrial, saídos do ensino ou dos campos de cultivo da economia familiar. Durante 2 anos foi-lhes ministrada formação e iniciaram, logo que possível, a produção.

ao fim de dois anos pedi ao encarregado geral, representante da empresa mãe numa das unidades, que fizesse uma avaliação da produtividade média das trabalhadoras, para termos uma ideia concreta do trabalho realizado.

para surpresa dele, e minha, a produtividade ultrapassava os 90% de uma operária alemã, com anos de experiência e vencimento muitas vezes superior.

produtividade baixa em portugal? só por falta de investimento em equipamento moderno e de topo.  a maioria dos empresários portugueses, mais patrões que outra coisa, ainda  baseiam os seus lucros na mão de obra barata e nos ganhos a curto prazo. pois, meus caros, eles sim, é que deviam ser objecto de todos os cortes, que trabalhem!

mudando o ditado: à banca e ao patrão dá sempre o governo a mão.

e porque vem a talhe de foice, um episódio que revela bem o espírito germânico de controlo de produção.

tempos depois vim a saber que as trabalhadoras que engravidavam não tinham o seu contrato renovado. questionei o responsável pela fábrica sobre esta matéria e foi-me dito que tinha que ser, em nome da produção, e para não se criarem maus hábitos; acrescentou, mesmo, que num país do norte de áfrica, numa fábrica que lá tinham montado, dissolviam a pílula na sopa do almoço, o que aqui não era possível.

em poucos anos as duas fábricas encerraram. já tinham sugado o que podiam e partiam para outro país.

vão à merkel

quando o mar trabalha na torreira_manuel neto


manuel neto

 

seria nevoeiro
não fosse do cigarro
o fumo

aqui tudo é condicional

contam-se histórias
espera-se melhor
vive-se do que o mar dá

tudo no seu tempo
foi é será condicional

até a areia
é outra
quando surge de verão
com o novo vestido
que a invernia moldou

é de mar o tempo
em que o verbo ficou

 

(torreira, século XX)

xávega_do arribar (5)


agostinho tabalhito (canhoto)

 
ainda o barco vai de arrasto pelas areia e já começa uma outra faina, a do escoar a água que entrou no barco e areia que ficou depositada no fundo, deixada cair por calas e rede.
 
o agostinho trabalhito (canhoto) empunha um escoadouro de metal, mas que normalmente é de madeira ou, até, improvisado cortando garrafas de plástico de 5 cinco litros ou mais.
 
a este utensílio também se dá o nome “vertedouro” nas artes da ria.
 
(torreira; companha do murta; 2007)