postais da ria (207)


porquê

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faz um dia do teu tamanho
depois deixa-o crescer
e vai com ele
ao encontro do sol

há aves poisadas na ria
são barcos com homens
velas ao vento braços abraços
vencidos cansaços
dos dias cinzentos baços

o que vai em último
vai também
e isso faz dele
um primeiro diverso
o que resiste

faço o dia com
o meu tamanho
encho-o com uma
única palavra

porquê

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(torreira; s. paio; 2014)

mãos de mar (17)


estranho sabor

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as mãos acabam
onde tudo começa
ou será o contrário?

na areia da praia
à torreira do sol
ardem palavras

uma gaivota passeia nas redes
faz a última limpeza
come

as mãos continuam
o princípio e o fim
no côncavo da palma

cheguei de mãos vazias
parto de mãos amargas
estranho sabor

a gaivota levantou voo
juntou-se ao bando

por momentos existimos

(torreira)

postais da ria (206)


para o meu amigo fernando nuno

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por que mares andaste fernando?
quantos navios?
quantas safras?
quantos comandantes?
quantos países?

quantas vezes mestre?
quanto aprendeste?
a quantos ensinaste?

pescador da torreira
é pescador de todos os mares
que da ria só embalo
não ganho que baste

no safar das redes
não safas a vida
alguém safará?

as histórias muitas
de teres sido e como tu tantos
enchem as horas da espera
de haver uma vaga
de chegar a idade da reforma
de partir ou ficar

na ria não se faz vida
pois não zé?

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(torreira; 2009)

5as de leitura com isabel rio novo e paulo m. morais


paulo e isabel ou isabel e paulo

paulo e isabel ou isabel e paulo

mais uma 5ª de leitura na biblioteca municipal da figueira da foz, ponto de encontro com autores que ainda não lemos, motivo para os ler ou revisitar os já lidos. viagem outra, por vezes, ao de dentro dos autores.

sempre, mas sempre o prazer de estar com quem escreve as palavras que nos seduzem impressas em livro.

(Isabel Rio Novo nasceu no Porto.

Doutorada em literatura comparada, é docente no ensino superior de Escrita Criativa e outras disciplinas nas áreas da literatura e do cinema.

Autora de várias publicações no âmbito dos estudos intermédia, das literaturas portuguesa e francesa e da teorização literária, já integrou o júri de vários prémios literários e de fotografia.

Gosta de dizer poesia, embora não a escreva.

Como ficcionista, começou a publicar dispersamente desde a adolescência.

Em 2004, escreveu a novela O Diabo Tranquilo, em colaboração com o poeta Daniel Maia-Pinto Rodrigues.

Em 2005, viu o romance A Caridade distinguido com o Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes.

Em 2014, publicou o volume de contos Histórias com Santos.
O romance Rio do Esquecimento, finalista do Prémio LeYa 2015, foi editado pela Dom Quixote.

http://escritores.online/escritor/isabel-rio-novo/
Paulo M. Morais nasceu em fevereiro de 1972.

Cresceu nos arredores de Lisboa entre futebóis de rua, livros de aventuras e matinés de filmes clássicos.

Licenciou-se em Comunicação Social e cumpriu um sonho de juventude ao fazer crítica de cinema. Depois pôs uma mochila às costas e fez uma viagem à volta do mundo. No regresso, especializou-se em textos sobre gastronomia e turismo, foi pai de uma menina e plantou um pessegueiro.

Atualmente trabalha na tradução de romances e livros de não-ficção. Vive apaixonado pelo ofício de descobrir histórias e imaginar personagens.

Em 2013, publicou «Revolução Paraíso» (Porto Editora), romance passado no pós-25 de Abril. Seguiu-se a distopia «O Último Poeta» (Poética Edições), em 2015. Nesse mesmo ano foi finalista do Prémio LeYa com «Seja Feita a Sua Vontade», novela ainda inédita, pois acabaria por ver publicado primeiro o livro «Uma Parte Errada de Mim» (2016, Casa das Letras), que junta memórias autobiográficas e reflexões sobre a vida ao relato do tratamento de um linfoma.

http://escritores.online/escritor/paulo-m-morais/)

o registo

vitor silva em tavares em coimbra, maio de 2014


&etceditora

este registo foi realizado dia 3 de maio, de 2014, na livraria alfarrabista miguel carvalho, em coimbra, com a presença de eduardo de sousa, um dos proprietários da livraria letra livre, que editou o livro “&etc uma editora no subterrâneo” e vitor silva tavares.

o facto de só agora ser publicado é produto de uma visita ao baú e de, apesar de considerar que a qualidade visual do registo não me agradar, pelas condições locais de luz, o discurso oral, o testemunhos, impuseram-se sobre o aspecto meramente formal do vídeo.

espero que, mesmo que tenham de fechar os olhos enquanto o vídeo corre, fruam das palavras, essas que tão caras fotam sempre a vitor silva tavares. penso que ficamos todo mais ricos com este testemunho.

 

Notas:

 

vitor silva tavares e a &etc

 

nasceu no bairro da madragoa, onde viveu até à sua morte, na rua das madres.

começou a colaborar em jornais no final da década de 50 durante o curto período em que passou por angola, tendo continuado as colaborações em lisboa, já no início dos anos 60.

dirigiu durante algum tempo a editora ulisseia, onde publicou nomes como mário cesarinyherberto hélderalexandre o’neill ou luiz pacheco.

em 1967 fundou o &etc, um magazine de letras, artes e espectáculos do jornal do fundão, que teve 26 números.

em 1973, mais precisamente a 17 de janeiro, sai o primeiro número do &etc como revista autónoma, que durou 25 números. primeiro teve uma publicação quinzenal, passando depois a mensal, tendo o último número saído em outubro de 74. tratava-se de uma publicação cultural bastante original, com colaboradores de grande qualidade. entre o corpo de redacção fixo e colaborações avulsas passaram por lá nomes como herberto héldernuno júdicepedro oomantónio ramos rosafiama hasse pais brandãojoão césar monteiro e armando silva carvalho, entre muitos outros.

em 1974 nasce a editora &etc, pequena editora de culto, situada na rua da emenda, dirigida de forma praticamente artesanal por vítor silva tavares. é uma editora com uma linha muito própria. tem no seu catálogo autores portugueses como alberto pimentajoão césar monteiroálvaro lapaherberto hélderadília lopesmanuel de freitas e muitos outros. estrangeiros, tem nomes como paul lafargueantonin artaudrilkesadetrotski ou roger vailland. tem editado sobretudo muitos textos de cariz alternativo, com edições muito pequenas, de poucas centenas de exemplares. tem a particularidade de não fazer reedições, o que significa que uma grande parte do seu catálogo se encontra esgotada. também graficamente é uma editora muito particular, com um formato original, quase quadrado (15,5 por 17,5 cm) e capas criteriosamente escolhidas. a produção é muitíssimo cuidada, com uma grande atenção a todos os pormenores.

morreu a 21 de setembro de 2015, aos 78 anos

https://pt.wikipedia.org/wiki/Vitor_Silva_Tavares

 

miguel carvalho

 

iniciou a sua actividade de livreiro antiquário em 1994 por influência do seu amigo bernardo trindade , filho de um dos mais antigos livreiros do país. no ano seguinte, após terminado a licenciatura em engenharia geológica em lisboa, dedica-se por exclusividade à actividade de livreiro antiquário abrindo a sua primeira livraria em coimbra. de uma forma geral trabalha os livros antigos que dizem respeito à cultura portuguesa, tendo no entanto e por paixão ao tema, enveredado pela literatura portuguesa do séc. xix e xx. publicou, entre outras:  “catálogo da biblioteca do prof. paulo quintela – literatura portuguesa séc. xx” em 2000; “descrição bibliográfica camiliana de uma muito importante e valiosa colecção de bibliografia activa e passiva de camillo castelo branco” em 2003; “catálogo de livros seleccionados para o salão do livro antigo da xvi bienal de antiguidades de lisboa” em 2004rn& catálogos bibliográficos integrados em exposições de livros antigos e pintura…

junho de 2011 – muda de instalações para adro de baixo (coimbra) ocupando 3 pisos de um edifício do século xix, onde reúne mais de 45000 volumes.

outras das suas actividades paralelas dizem respeito à investigação geológica, tendo em 2003 realizado um mestrado em cartografia geológica e é actualmente doutorando de cartografia e paleontologia. é autor de diversos trabalhos publicados na área da malacologia, história da geologia, geologia, cartografia e sedimentologia.

o surrealismo é a ideologia na qual se identifica e trabalha em projectos editoriais e pessoais, tendo iniciado a sua actividade em 1995 como colagista e em desenho. neste sentido tem efectuado nas instalações da livraria eventos culturais sem interesses comerciais exposições e eventos ligados ao surrealismo.

em 2009 cria a marca registada“debout sur l”oeuf – edições surrealistas”. voltada à realização, não só de eventos mas sobretudo de livros-objectos, produziu mais de uma dezena de edições limitadas, desde alguns exemplares até 200. em 2010 criou a primeira revista objecto portuguesa debout sur l”oeuf – nº1″, limitada a das tiragens de execução manual: uma de 30 exemplares com 5 originais e outra de 70, em que colaboraram mais de 30 criadores vivos e ligados ao movimento surrealista.

junho de 2011 – com a mudança de instalações para adro de baixo coimbra) ocupando 3 pisos de um edifício do século xix, cria na casa livreira uma galeria debout sur l”oeuf onde apresenta exposições de pintura, desenhos, esculturas, fotografia, etc …

http://www.livro-antigo.com/historial/

Livraria e editora Letra Livre

 

Uma pequena livraria, criada em Abril de 2007, de livros novos e usados, localizada no centro de Lisboa especializada em literatura e ciências humanas, onde as as edições independentes tem um particular destaque.


Seguindo a tradição dos livreiros-editor

 

crónicas da xávega (195)


até um dia

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tudo fica agora longe
próximas
as imagens as memórias
o sentir ainda

descrevo o que vejo
ou sinto quando olho
e escrevo porque

as palavras
crescem da imagem
como da terra a árvore

e eu
eu sou ainda
o que não vai haver

parado num tempo
em que fui demais
para não voltar a ser

espero-vos
onde a espuma
adormece na areia
e há sempre esperança
de haver mar

até um dia

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(torreira; 2011)