para o zeca


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amigo
serás sempre maior que o pensamento

tu que cantaste maio
e foi numa madrugada de abril
tu que foste a toupeira
e cantaste o sol e nos levaste a agarrá-lo

amigo
serás sempre maior que o pensamento

as tuas palavras a tua voz
são ainda tu aqui agora
sempre

duas sílabas um nome
um grito uma canção um protesto
uma revolta um princípio
uma alavanca um não desistir
aqui agora sempre

amigo
serás sempre maior que o pensamento

30 anos depois
não há depois
há o futuro todo

amigo
serás sempre maior que o pensamento

(abril, a 25)

a beleza do sal (12)


só há uma partida

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enfeitar

só há uma partida
a definitiva
o mais são abandonos
por raiva desilusão
amar demais para

amanhã vou para o sul
voltarei breve
enquanto regresso
possível for

deixo-vos com o sal
e o corpo de uma mulher
lugar onde terra e mar
se unem para dar
sabor à vida

(morraceira 2016)

postais da ria (200)


sou gorim

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e as raízes cresceram para a ria
atravessaram as conchas vazias
traiçoeiro chão
foram ao encontro das origens primordiais

olhei os rostos parados
poisados nas lápides de mármore branco
escutei as vozes antigas
e todas me disseram
és daqui gorim

erguidos os braços
as mãos saudavam-me de dentro das bateiras
do meio da ria
sabiam-me
em voz alta digo os nomes
chamo-os
reconheço neles a minha gente

voltei para partir?
não sei
só sei que estarei sempre aqui
como os que já cá não estão

os gorim

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(torreira; 11 de fev de 2017)

na bateira o henrique gamelas ciranda a parca apanha de berbigão. a vida não está fácil na ria

nasceu uma associação de fotografia na murtosa


fazia falta, faz sempre falta

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joão cruz, celestino silva e horácio graça

hoje dia 11 de fevereiro de 2017, pelas 16h30m, nas instalações do museu municipal COMUR, na murtosa, realizou-se a assembleia constitutiva da AFAVM – Associação de Fotografia e Artes Visuais da Murtosa.
foram 51 os sócios fundadores, somos 51 os sócios fundadores, somos já muitos, mas nunca somos bastantes. faltas tu.
fica o registo do preenchimento dos termos de aceitação pelo vogal da direcção, celestino silva, e do vice-presidente da assembleia geral, horácio graça, sob o olhar atento do presidente da direcção, joão cruz.
como é tradicional desejo – desejamos todos – à nova associação “longa vida” e grandes realizações.
fazia falta, faz sempre falta

os moliceiros têm vela (248)


“moliceiro”

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o ti abílio e o cunhado no canal de aveiro

queria escrever uma palavra
uma imagem
algo que ficasse para além de mim
do efémero hoje
do eterno ontem
do provável amanhã
que falasse de um povo
duma terra dum sentir

do ser

enchi folhas e folhas
de palavras de sonhos
esboços rascunhos

por mais que procurasse
apenas uma me encheu
de tudo e de todos
de tempo e de o não haver

a palavra a imagem o homem
sobrepunham-se numa só linha
em letras breves

“moliceiro”

(regata da ria; 2013)

 

mãos de mar (12)


utensílios primordiais

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utensílios primordiais
a navalha e o bordão
no repartir do trabalho
e do seu fruto

as mãos são
as mãos de tantos quantos
para além delas
habitam o tempo
gravado no bordão

escrita sábia esta
sem palavras
escultura elementar
em louvor dos dias

parto e já não sou tão pouco
sou mais um
vejo para além do que vejo
cresci

ganhei o mar que pressinto
para ser barco homem memória

(torreira)

postais da ria (199)


do viver

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o meu amigo ti zé formigo

há os que usam da memória
para serem o que já foram
ilusão de

eu uso a lucidez que me resta
para viver os dias
sem ilusões

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o prazer da ria é ser nela todo

(torreira; s. paio; 2014)

o ti zé formigo ao leme da sua bateira, no permanente resistir às adversidades da vida