
renascer
impossível reconstruir
a ponte
a tempestade caiu brava
imprevisível
sobram destroços
pedaços de memória
ilusões desfeitas
caminho
costas voltadas
ao que foi
urgente renascer

(torreira; safar caranguejo; 2012)

renascer
impossível reconstruir
a ponte
a tempestade caiu brava
imprevisível
sobram destroços
pedaços de memória
ilusões desfeitas
caminho
costas voltadas
ao que foi
urgente renascer

(torreira; safar caranguejo; 2012)
recuso
recuso que me roubem
a terra que me deram
que herdei
recuso deixar de ser

o arrais joão da calada, a reparar redes
(torreira; 2013)
ainda
estarei onde
os olhos poisarem
serenos de
sou o que regressa
por ser
esta a terra o mar
as gentes
vivo onde estou
sou onde sinto
um sorriso
questiona-me
já por cá
ainda

os “henrique gamelas” pai e filho
(torreira; cabrita baixa; 2012)
as mãos
as mãos
chegam pela manhã
a carícia
quanto partem
dizem em silêncio
a dor de
as mãos que dei
não esperavam nada
nem o que recebi
poucos são os
finais felizes

(torreira; 2016)
agostinho
vejo-te e sei-te
agostinho
não há búzios
aqui
ouve-se o mar
em directo

o meu amigo agostinho canhoto e o bordão
(torreira; 2013)
o meu tempo

enraizadas na água
antiquíssimas
as vozes dos mortos
sem rosto
iluminam caminhos
gastos
de tanto os refazer
há um tempo sem
tempo
por dentro de todas
nele habito para ser

(torreira; regata do s. paio; 2011)

inexplicável
não me perguntes
porque escrevo
não me perguntes
porque estou vivo
em tudo
muito pouco
é explicável
inexplicáveis os dias
onde sou
e tudo acontece
nem só a fé
é mistério

o tino a reparar a cabrita
(torreira; 2013)
é tempo de sal
é verão
sobre o corpo o sol
arde queima greta
as horas escorregam
devagar
ao comprido do dia
os cristais formam-se
ao ritmo
do sol da água do homem
é tempo de sal
no talho

é conhecido por “buíça” e aos 81 anos é um dos mais idosos marronteiros do salgado da figueira
(armazéns de lavos; achegar; 2017)
cacilda
escrevo devagar
o teu nome
em cada letra
bebo o mar
cacilda és uma gamelas
filha do ti chico
irmã do cipriano
cacilda
sal escamas cordas redes
norte areia
por vezes peixe
cacilda
o sorriso as palavras
poucas o corpo entregue
à faina
cacilda
és MULHER
do mar

(torreira; 2013)
haverá luz?

caminham e sabem
o que deixam
desconhecem o que
os espera
haverá carrascos inocentes?
será que o amor também mata?
neste momento não sei nada
um sopro de vento
o crocitar de um corvo
longe de tudo
perto do fim
um cardo seco
nunca será papoila
ceifada a seara

(figueira da foz; 2017)