percurso
de desilusão
em desilusão
até à ilusão final

mexer
(armazéns de lavos; mexer; 2017)
percurso
de desilusão
em desilusão
até à ilusão final

mexer
(armazéns de lavos; mexer; 2017)
judas intemporal
judas era um bom homem
tão bom
que traiu o amigo e o vendeu
na versão canónica suicidou-se
numa nova leitura com o prémio
comprou terras para cultivo
a segunda versão parece-me
mais razoável
mais do nosso tempo aqui
intemporal

(torreira; 2010)
para o joaquim rodrigues
(massa)
queria dizer-te
que te admiro
massa
não porque cantes
melhor que o zé cabra
pior é difícil
tu nasceste para cantar
não porque a trabalhar
o faças como poucos
és energia pura
não pela tua alegria
os teus malabarismos
com o bordão na praia
és um artista nato
admiro-te
pela tua força interior
pelo modo como venceste
onde tantos sucumbem
tu és enorme massa
da tua fibra muitos
houvessem
massa assim é outra massa

(torreira; arribar da mão de barca; 2012)
para os devidos efeitos

quando eu morrer
não entreguem à terra
um corpo que sempre foi de mar
quando eu morrer
uma gaivota levantará voo
uma onda morrerá na praia
nada de anormal
são coisas que estão
sempre a acontecer
como
quando eu morrer

(torreira; 2010)
cipriano

cipriano brandão e a esposa aurora (2012)
estás aqui
mesmo que não estejas
em mais nenhum lugar
estás aqui
olhar o rosto de um amigo
é lembrar estórias
é estarmos vivos
num mundo que é só nosso
o da memória comum

cipriano brandão e a esposa aurora (2012)
(torreira; safar redes; 2012)
o homem da beira-ria

tão pouco uma palavra
e tanto nela se não dita
se negada depois de dada
aqui os homens
têm o tamanho da sua palavra
negá-la é negarem-se
o homem da beira-ria
é homem de palavra
ou ave de arribação

(torreira; regata da ria; 2010)
herança
dou-te o que me deram
serás não o que fui
mas mais muito mais
que doutras artes
mestre serás
serei em ti
a memória do gesto
do saber antigo
doutras vidas
herança de saberes
a que te deixo
farás por mim sal

(morraceira; 2016; rer)
vidas com escamas
quantas safras
em quantos sacos
estas mãos
vidas com escamas
isso te digo
destes homens
destas mãos

(torreira; 2015)
até um dia
como se um filho
a rede nos braços
a vida ganha-se
não é oferecida
a mim não
a areia sob os pés
cede prende
pesados passos
o sol ainda não
e o arrais
deu ordens de mar
chego
chego e faço minha
esta praia
onde venho ao mar
buscar o pão
até um dia

(torreira; 2012)
dos amigos e não só
cuida dos amigos de hoje
deixa que seja o amanhã
a deles fazer juízo certo
para alguns
amanhã foi ontem
são eles
que fazem os dias
mais tristes

a safar redes – mulher da torreira, onde a a vida não dá para camaradas
(torreira; porto de abrigo; 2013)