hoje sorrio

toda a geografia
é aqui
todo o tempo
é agora
ser é estar
intransitivamente
sou e estou
hoje sorrio

(estive com a minha neta mais nova, a marta de 2 meses, e isso é toda uma antologia)
hoje sorrio

toda a geografia
é aqui
todo o tempo
é agora
ser é estar
intransitivamente
sou e estou
hoje sorrio

(estive com a minha neta mais nova, a marta de 2 meses, e isso é toda uma antologia)
hoje sou palavras

escrevo amigos
e a palavra
tem gente dentro
gente que não conheço
me abraça e abraço
com palavras
dizê-los escrevendo-me
sentirem-se ao ler-me
é sonhar ser mais
hoje sou palavras

(torreira; regata do s. paio; 2014)
hoje sou memória

o M. Fátima
pesam em mim gerações
que desconheço
enterrados na memória
comum de um povo
os meus maiores
entre mim e eles o ser eu
a continuação
existo por que existiram
isso lhes devo
quisera soubessem que
os lembro
porque continuam em mim
hoje sou memória

na areia um barco só pode morrer ou descansar
(praia da torreira; 2013)
hoje sou nuvem

sei que desconhecido
é o amanhã
todos os dias podem ser
tudo
e isso é existir
sei que o fim
é o fim
do desconhecido
por isso hoje
é sempre e eu
hoje sou nuvem

(torreira)
hoje quero ser vela

a ilusão é estarem juntos
porque deviam
a realidade é a ilusão
ser só isso
contenta-te com o que vês
e sê feliz
se as velas fossem asas
haveria quem as quisesse
roubar
mas são apenas asas
não servem para voar
hoje quero ser vela

(torreira; regata da ria: 2010)
quero ser barco

estátua nome de rua
jardim praça medalha
não as quero
sequer as mereço
nada fica
de quem a tudo se deu
se me disserem de pedra
acreditem
tudo o que de mim digam
é verdade ou foi
estou cansado velho
gasto desconjuntado
no tempo que me falta
quero ser barco

(torreira; coampanha do marco; 2014)
em torno de mim

impossível este silêncio
este momento sem tempo
quase um quadro
onde nada perfeito é
desvendar os olhos
imaginar os gestos
imperfeitos de humanos
o movimento cadenciado
das mãos o trabalho
a carícia ou a sua ausência
o vento sorri
e eu sou o que resta de mim
o que fizeram do que fui
o círculo
lembro-me de o ter escrito
algures
por mais largo que seja
fecha-se sempre
as pontas começam a unir-se

(murtosa; cais do bico)
espero

espero
as palavras sensatas
a resposta
cordata e pensada
reconhecidos
o erro a falta
espero
a justa paga porque
prometida
e como tal devida
a quem por ela fez
mais do que
quem dela sem saber fala
espero
mais que tudo
e como sempre
que os homens sejam
a palavra dada
convertida
no pagamento devido
só isso
sou as águas calmas
da ria
mas também as vagas
quase de mar
quando do norte
o vento forte
em rajadas
espero
mas não muito

(torreira; regata do s. paio; 2012)
da vida

depois de safadas as redes regressam à ré
o meu amigo henrique
pardilhoeiro
na ria é assim
nome próprio dão os pais
alcunha apelido
é coisa da vida

arrumadas à ré, prontas a serem largadas quando da maré
(torreira; porto de abrigo)
só esses

a companha carrega o saco na zorra
vêm da terra as vozes
que não ouvimos
o termos nela raízes
é o silêncio de sermos
sem necessidade de alarido
escrevo nós
e não é o pronome que ouço
são os laços
tão fortes e tão frágeis
que o tempo romperá a seu tempo
não precipites os dias a haver
vítima serás
se carrasco quiseres ser
abraço quem me abraça
escreveu o poeta
eu também
só esses

todos unidos, são a companha
(torreira; companha do marco; 2015)