tempo de espera este
sobreviver para viver
sem saber quando
tempo para lembrar
depois esquecer
tempo de não ser
o sal está a trabalhar
dizem e esperam
o tempo de estar feito
no talho que me coube
vou mexendo os dias
com vontade de os rer
doem-me os braços
por falta de abraços
sei dos dias pela luz
em todos vos amo
sem saber de datas
nem efemérides
em todos todos vos quero
sem destrinça
em todos os dias todos são
sei dos dias pela luz
dos que esperam
ser no calendário dia
digo que cegaram
voo para o sol
de onde vêm estas vozes
estes murmúrios
trazidos pelo vento
sobre mim caem
como folhas de outono
o inverno aproxima-se
sorrateiro abraça-me
um beijo tarda
e não chega
olho as palavras
que foram minhas
com o espanto
de o terem sido
quem fui
para as ter escrito
quem sou
quando as escrevo
quem serei
quando as lerem
indiferente o agostinho
dá o porfio ao saco
essencial para o pescador
é um bom laço de carapau
torreira; regata de bateiras à vela; s. paio; 2010
não há mar que nos aparte
nem terra que barreira seja
caminhei por sobre a ria
ao encontro do mar
e o inverso que caminho
também o era
não há mar que nos aparte
nem terra que barreira seja
o sentir vai e vem por onde
caminhar pode
sem saber de outro destino
que o encontro
não há mar que nos aparte
nem terra que barreira seja
apenas uma palavra percorre
estes dias e é amizade
partiram de bolsos vazios
e o país no coração
sonhavam uma vida melhor
uma casa a velhice diversa
foram dos primeiros e
voltaram
e no voltarem foram
os últimos
filhos e netos semearam
que outras raízes criaram
mais que uma bandeira
são um povo
orgulhoso das suas origens
é uma honra ter entre eles
tantos amigos
gostava muito de se sentar
e ficar assim a olhar o mar
um livro
poisado nos braços
os olhos pendurados no horizonte
como era imensa a janela
incomensurável a casa
(nota: reparem na “ferramenta” de aço inox, utilizada para suportar a manga, a conduzir e impedir que roce na areia. na praia da torreira e na de mira, conhecia a técnica do cruzamento dos bordões/estacadões que se fazia para produzir este efeito. inovação meus caros, na xávega inova-se, é bom que se inove porque é sinal de que continua. será que algum dia, alguém ao ver isto vai dizer que já não é xávega? sei lá?)