a beleza dos sal (112)


doem-me os braços

ilha da morraceira; rer; 2020
 tempo de espera este
 sobreviver para viver
 sem saber quando
  
 tempo para lembrar
 depois esquecer
 tempo de não ser
  
 o sal está a trabalhar
 dizem e esperam  
 o tempo de estar feito
 
 no talho que me coube
 vou mexendo os dias
 com vontade de os rer
  
 doem-me os braços
 por falta de abraços 

postais da ria (377)


sei dos dias pela luz


torreira; corrida de chinchorros; 2014
 sei dos dias pela luz

 em todos vos amo
 sem saber de datas
 nem efemérides
  
 em todos todos vos quero
 sem destrinça
 em todos os dias todos são
  
 sei dos dias pela luz
 
 dos que esperam  
 ser no calendário dia  
 digo que cegaram
 
 voo para o sol 

crónicas da xávega (366)


dar o porfio

xávega; dar o porfio; torreira; 2011
olho as palavras
que foram minhas
com o espanto
de o terem sido
 
quem fui
para as ter escrito
 
quem sou
quando as escrevo

quem serei
quando as lerem
  
indiferente o agostinho
dá o porfio ao saco

essencial para o pescador
é um bom laço de carapau
 
 

postais da ria (376)


amizade

(para o mirco bompignano)

torreira; regata de bateiras à vela; s. paio; 2010
 
 não há mar que nos aparte
 nem terra que barreira seja
 
 caminhei por sobre a ria
 ao encontro do mar  
 e o inverso que caminho
 também o era
 
 não há mar que nos aparte
 nem terra que barreira seja
 
 o sentir vai e vem por onde
 caminhar pode
 sem saber de outro destino
 que o encontro  
 
 não há mar que nos aparte
 nem terra que barreira seja
 
 apenas uma palavra percorre
 estes dias e é amizade
 
 

os moliceiros têm vela (431)


português emigrante

ti abílio; regata do bico; 2019
 
 partiram de bolsos vazios
 e o país no coração
 
 sonhavam uma vida melhor
 uma casa a velhice diversa
  
 foram dos primeiros e  
 voltaram
 e no voltarem foram
 os últimos
  
 filhos e netos semearam
 que outras raízes criaram
  
 mais que uma bandeira
 são um povo
 orgulhoso das suas origens
  
 é uma honra ter entre eles
 tantos amigos 

crónicas da xávega (365)


sentou-se

costa de lavos; 2017
 
gostava muito de se sentar
e ficar assim a olhar o mar
 
um livro
poisado nos braços
os olhos pendurados no horizonte
 
como era imensa a janela
incomensurável a casa 

(nota: reparem na “ferramenta” de aço inox, utilizada para suportar a manga, a conduzir e impedir que roce na areia. na praia da torreira e na de mira, conhecia a técnica do cruzamento dos bordões/estacadões que se fazia para produzir este efeito. inovação meus caros, na xávega inova-se, é bom que se inove porque é sinal de que continua. será que algum dia, alguém ao ver isto vai dizer que já não é xávega? sei lá?)