postais da ria (347)


inté
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torreira; 2016

 
um dia
quando eu morrer
vão-te dar uns dias
para estares comigo
 
mas
eu já não estarei
fui-me
 
aproveita esses dias
para estares contigo
não me inventes
nem te reinventes
aproveita o que te dão
pai não morre todos os dias
 
é tarde
são quase horas
de ir lanchar
 
inté

postais da ria (346)


essencial
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torreira; cirandar; 2011

 
como a água essencial
a palavra
filtrada joeirada lavrada
 
na depuração do sonho
acordar apenas
no exacto instante em
que te beijo
 
no ramo restam as flores
com o teu perfume
nos meus dedos ainda
 
torna límpidas as manhãs
mesmo se de nevoeiro
o poema que não escrevi
 
os teus olhos são sempre
o essencial
 

a beleza do sal (78)


palavras salgadas

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guardas em arcas as palavras
em sal
à moda antiga de antes de ti
mas o sal não conserva as palavras
digo-te eu que de outro tempo
um dia lembrar-te-ás das palavras
guardadas
das que não disseste
do silêncio
irás à arca em sua busca
pensando usá-las
mas não terás o destinatário
para quem as guardaste
se as guardaste
o tempo corrói tudo
até o presente
que não usaste
e então
talvez seja sal o que
pelo rosto te escorre
sal nada mais
sem palavras
a temperar o silêncio
o não dito
(armazéns de lavos; mexer; 2019)