postais da ria (295)


como na anedota
0 ahcravo_DSC0679

(torreira; porto de abrigo; 2018)

 
sei que existem
pelo ruído
não pela voz
que a não têm
 
não sabem o que são
sendo o que não sabem
papagaios nocturnos
enganados nas horas
 
voam baixo como
as galinhas
na ilusão de águias
pescadoras
 
deixo-os poisar
como na anedota
(torreira; porto de abrigo; 2018)

mãos (3)


(lembrando dois grandes mestres
fernando pessoa e josé gomes ferreira)
0 ahcravo_DSC_6384_bilros
querem
 
querem que eu tenha
o vosso tamanho
 
querem que desça
as escadas de mim
e fique na porta
de esperar sentado
 
estou aqui inteiro
com o tamanho de ser eu
não do sonho de mim
mas o de ser assim
 
queriam que eu tivesse
o vosso tamanho
 
deixem-me rir
 
(ao fundo um cantautor, senta-se ao piano e com a sua voz rouca inicia uma canção)
 
crónicas da xávega (299)

crónicas da xávega (299)


lavradores do mar
0 ahcravo_DSC_6428 s bw.jpg
 
abrem nas ondas regos
ao mar vão semear redes
sem saberem da colheita
 
chamam terra à areia
onde retornam espuma dorida
 
não lhes fales das serras
do silêncio do chilrear das aves
nunca o entenderão
 
são lavradores do mar
0 ahcravo_DSC_6428 s
 
(torreira; 2016)

crónicas da xávega (298)


ti henrique gamelas

ti henrique

trago no rosto
as memórias que o mar rasgou
fundas de haver história
linhas escritas com tinta de vento
e palavras de raiva
trago no rosto
a minha alma cansada de viver
estes olhos comidos pelo tempo
de tantas lágrimas sofridas
de tantas vidas vividas
trago no rosto
uma máscara que não podem
arrancar
trago no rosto
o mar
(torreira)

crónicas da xávega (296)


a primeira flor
0 ahcravo_DSC_0666 bw

a minha amiga cacilda, mulher do mar da torreira

 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
abrem-se no rosto trilhos
salgados de tanto mar
perdem-se no longe os olhos
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
falarei sempre do sonho
quando no infinito os olhos
inventarem um ser diferente
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
amanhã minha neta
que foste do meu sangue
a primeira mulher
não terás o rosto assim
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
mas são estes os rostos
que eu quero que lembres
e faças teus porque meus
deste ter sido aqui mais um
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
mas
hoje é o teu primeiro dia
e esta a flor que te ofereço
0 ahcravo_DSC_0666 sep

a minha amiga cacilda, mulher do mar da torreira

 
(torreira; 2013)

da memória dos dias (08/03/2012)


contam histórias

ahcravo_olhares_fotog_DSCN7672 mulher eira pedrinha

povoam as aldeias
com o negro da saudade
não choram em público
não se lhes sabe a idade
nem conhecem outra cor

são o tempo que foi
nele moram

guardam-se
são a memória de
terem sido mais
na casa vazia
a solidão

esperam-se
ignoram quanto

contam histórias às crianças
enganando o tempo
(condeixa; eira pedrinha)