postais da ria (139)


pão parco

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safar as redes da solheira para a plataforma

no longe quem sabe
o futuro
um barco meses no alto

um salário nos dedos
rasgados pelo gelo
redes cordas espinhas

sonhar amanhã
um destino diverso  deste

estagnado na beleza inútil
de onde um pão parco

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fosse o peixe limo e boa a pescaria

(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)

crónicas da xávega (136)


pelo pão de cada dia

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o mestre de redes e o saco

no chão estendido
um véu rendado
é manto que cobre

homem e mar unidos
na malha dos dias
onde sol sal areia e suor

se fundem num só corpo
por debaixo das nuvens
nos caminhos percorridos

pelo pão de cada dia

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como se um véu de noiva o saco nas mãos do cebola

(torreira; companha do marco; 2010)

as maõs e os olhos do mestre das redes, o cebola,  percorrem o saco em busca de rombos

crónicas da xávega (135)


quisera-me lá

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o arribar do calão do reçoeiro

haver ainda mar
por onde olhos
se perdem

se esvai
a raiva imensa
de saber que homens
lobos de homens

sou areia onde espuma
chega-me o sal aos olhos
navego para longe

quisera-me lá

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o delmar à direita e o ti augusto de boné ao fundo à esquerda

(torreira; companha do marco; 2013)

os moliceiros têm vela (186)


na vela o vento

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com duas velas

ser ainda árvore
depois da tempestade

deixar que o vento siga
a sua eterna viagem

fundas as raízes na terra
escrevem o teu nome

sorris sem saber como
nem para quem

mais forte o sorriso
que o vento

na vela

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que beleza é esta?

(torreira; regata da ria; 2011)

postais da ria (135)


a capa

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o salvador e o falecido pai, ti domingos, cirandam berbigão

não lhes conheces
o rosto o nome
o quanto

à mesa saboreias
o que deles

olhas os registos
estudas contrastes
enquadramentos

outro repasto
para outro prazer

regressarás quando
só porque viste
saboreaste sentiste

mas não lhes sabes
o nome o rosto
a vida

não contas a estória
lês do livro a capa

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as cores da ria não dizem tudo das suas gentes

(torreira; cirandar)