os moliceiros têm vela (200)


aos senhores da terra

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toda a beleza dos moliceiros

queria acreditar em vós
em tudo o dizeis

ouço-vos atento

mas de que serve ouvir-vos
se fazeis o oposto

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o que é tem a ver o moliceiro com o logotipo da câmara da murtosa

(torreira; regata da ria; 2010)

crónicas da xávega (147)


dos euzinhos

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que escrevam depois
o que foram
é coisa que também
me importa

escrever o passado
é trabalho
minucioso e de valia

mas fazer parte dele
porque se foi presente
é coisa que no café
à secretária a facturar
alguns sonham enquanto
flores e aves registam
para postais institucionais

lembro-me deles
quando me dói estar longe
com fome de mar

não são das gentes
da terra que dizem sua
são por si para si

euzinhos

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(torreira; companha do marco; 2009)

postais da ria (149)


ser quase nada

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a ria por destino

ser o que passa sabendo
que ao passar
deixa o ter sido nada mais

escrever-me aqui
onde nem papel
é ser quase nada
onde por ilusão

tantos

julgam ser
quase tudo

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henrique brandão e o filho, henrique também, arrumam as redes da solheira

(torreira; marina dos pescadores)

crónicas da xávega (146)


até um dia

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o ti augusto amarra a manga logo a seguir ao calão, para que passe no alador

não têm rosto
a voz deram-na a outros
para que por eles

são o silêncio
o murmúrio
a resignação

falam com eles
quando lhes querem
pedir a voz
não lhes dizem que
roubada será

esquecem-nos depois
falam deles
não por eles muito menos
para eles

têm no rosto escrita
a vida

até um dia
serão apenas
o país profundo

até um dia

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dar-lhes voz

(torreira; companha do marco; 2013)

postais da ria (148)


cabrita alta

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joão manuel dias

escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos
lançar arrastar puxar
lama cascas ameijoa
quantos quilos mais?

os músculos retesados
joelhos fincados
na borda na bateira
esmagam rótulas

tenso o dorso
o esgar na boca
nos olhos no rosto
os dentes cerrados

o esforço verga o corpo
desgasta-o deforma-o
o homem não é de ferro
a cabrita sim tem dentes
ferrados na lama na carne
rasga músculos fere

escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos

quero que os sintas
ao leres

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no fundo da ria e cabrita arrasta

(torreira; cabrita alta; 2012)

os moliceiros têm vela (197)


tudo são aparências

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o zé e o seu moliceirinho

é nos dias de calmaria
que nasce a tempestade

tudo são aparências

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de chapéu verde, o s. paio do zé rebelo

(torreira; regata do s. paio; 2014)

o zé rebelo prepara o seu moliceirinho para a regata