não é fácil
escrevo a direito
por isso recebo tantas
respostas tortas

quando a companha é a família
(torreira; cirandar; 2016)
não é fácil
escrevo a direito
por isso recebo tantas
respostas tortas

quando a companha é a família
(torreira; cirandar; 2016)
sonho
que me lembrem
pelo que fiz
não pelo que fui

aparelhar
(torreira; 2016)
essencial o homem

o moliceiro “Dos Netos”
por sobre o espelho
da ria o moliceiro
desliza à força da vara
em dias sem vento
ou de passagem de modelos
de nada serve a vela
fica o mastro a falar dela
essencial o homem
é a força de ser ainda o barco
a bandeira erguida
de uma terra que se busca
num tempo onde ainda não se sabe
se perdida por falta de raízes
numa suposta ria encanada
na cidade
há uns barcos que se fazem
passar por
essencial o homem
desmente-os

o moliceiro “Dos Netos”
(torreira; regata do s. paio; 2010)
é tarde
é tarde
é sempre tarde
depois de

(morraceira; rer; 2016)
“Os intérpretes de vidas
…. Até que ponto podemos fiar-nos nos nossos amigos e conhecidos e sócios, nos nossos amores, nos nossos pais e nos nossos filhos? Quais as suas tentações e debilidades, ou o seu grau de lealdade e a sua fortaleza? …. E mais ainda: podemos prever que amigos vão virar-nos as costas um dia e converter-se em nossos inimigos? …. Podemos fiar-nos em nós, em que não seremos nós que mudaremos e nos viraremos e atraiçoaremos, que invejaremos um dia quem hoje mais amamos e não poderemos suportar o seu contacto nem a sua presença, e decidiremos reger-nos só pelo nosso ressentimento? …… “
(in Javier Marias, “O teu rosto amanhã”, 3º volume, “ Veneno e sombra e adeus” )

depois de muita luta o barco ganhou o mar e fez o lanço
(praia de mira; 2010)

depois de muita luta o barco ganhou o mar e fez o lanço
de véspera

de véspera
fazer as malas
as despedidas
pôr o bacalhau de molho
de véspera
fazer a preparação
para o exame do dia seguinte
matar o perú
de véspera
a ansiedade porque
tentar dormir para
dizem de mim que cedo chego
de véspera
ninguém morre
ninguém nasce
de véspera
nem estas palavras

(praia de buarcos; 2016)
é urgente
é urgente
libertar os dias
desamarrá-los de afectos
com data marcada
manifestação despótica
de homens incompletos
mais frios uns
maiores outros
chuvosos secos
mas dias todos
é urgente
libertar os afectos
desamarrá-los de datas
é urgente ser hoje

(praia de mira; 2009)
‘miga
hoje no mercado de buarcos
fui abraçado por uma palavra
‘miga
conheci-a em setúbal
no bairro das fontaínhas
onde murtoseiros pescadores
quando a ouço regresso
aos tempos de eu menino
às vozes que pela ladeira
‘miga
diziam antes de começar
qualquer conversa
tempo em que todos
eram amigos e camaradas
por isso entre pescadores
‘miga
mais que a ouvir senti-a
há palavras assim
que nos chegam como se
um abraço

a bela e o jim cirandam berbigão
(torreira; cirandar)
fui com o vento
fui com o vento
com o mar te deixei
somos as nossas palavras
deverias sabê-lo
fossem barco as palavras
partiriam e voltavam
mas as palavras não são barcos
só sabem partir
há tanto mar no vento

o sacudir do saco
(torreira; 2016)
obrigado fernando

ando como se não soubesse
de outro caminho
o mar ao fundo os livros à mão
é dia de feira de rever amigos
da tertúlia das velharias
do fernando e da suméria onde
nunca fui como a quase tudo
as lombadas alinhadas
por temas e preços
bons os do fernando
patrono dos leitores ávidos
e pouco abonados
as primeiras as segundas
as que lhe calharam em sorte
os amigos agradecem
a atenção que lhes faz sempre
e são amigos todos
os que lhe compram livros
é sábado e eu não sei
se ainda há sábados para mim
todos os dias são domingo
para um reformado
ando como se não soubesse
de outro caminho
o mar ao fundo os livros à mão
comprei um livro
extraordinário
obrigado fernando

(buarcos, feira das velharias)