depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
irei até onde com o que

ciranda de dois, amigos todos
tudo é de novo início
tardio mas início
escasso o tempo
desgastado o corpo
cirandado pelo tempo
caminho
caminho
caminho
o que resta de mim
sonhos por cumprir
irei até onde com o que
(torreira; cirandar)
de tanto dares

de tanto dares
a mão
ficaste sem ela
deste porque sim
receberam porque também
não esperes mão
da mão a quem mão deste
o que foi dado
esgotou-se no acto primeiro
mão a mão
enchem muitos o papo
isso te digo
coisas de galinhas
ou galos de capoeira
(costa de lavos; companha do armando; 2017)
da leitura

tivesse eu lido
o homem
como o homem
lia o mar
soubera eu

(torreira; 2016)
escrevo-me

o “bulhas”
escrevo-me d e v a g a r
vermelho
sangue de mim
palavras
deitadas ao vento
na ria

(regata da ria; 2017)
das redes

álvaro gavina
roupa que não vestem
mas que lhes traz o pão
as redes
querem-se limpas
(torreira; 2017)
(re)começar

o arribar da mão de barca
depois de mim
tudo continuará
porque não
começar já o depois?
(costa de lavos; companha do armando; 2017)

Rui Miguel Fragas, pseudónimo de António Rui Féteira, nasceu em 1964, em S. Miguel de Poiares (Coimbra). Licenciou-se em filosofia na Universidade de Coimbra. publicou alguns poemas e contos nas revistas Alma Azul e Aeroplano. tem três livros de poesia publicados: ” O Nome das Árvores” (Poética Edições, 2014), “Não sei se o Vento” (Poética Edições, 2015) e “O Rumor das Máquinas” (UA Editora, Universidade de Aveiro, IV Prémio Literário Aldónio Gomes, 2015). Participou na antologia “As Vozes do Isaque”«, Derivações Poéticas a partir da obra “O Último Poeta” (Poética Edições, 2016). Em 2017 venceu a VII edição do concurso Poesia na Bibilioteca, Condeixa-a-Nova, com o poema “O cão de Pavese”.
*
O mundo está reduzido a cinzas, soluçou uma das mulheres, ao sue lado. Ardeu o mundo inteiro no meio do borralho arde agora a memória de tudo quanto ardeu. Nada disso, ripostou o coveiro. DE acordo com o que vem escrito na bíblia, ardeu, quanto muito, uma terça parte da terra e uma terça parte das árvores e uma terça parte dos homens. Quanto a nós, que é o que interessa, estamos vivos. E para quê, suspirou a mulher num fio quebrado de voz.
(da badana do livro)
da apresentação do livro de contos “A ÚLTIMA RODADA“, feita na biblioteca municipal da figueira da foz e promovida pelo clube de leitores, aqui fica o registo possível.
(obrigado amigo Santos Silva pelo registo)
a dança das redes (8)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
(torreira; 2017)

há registos difíceis de fazer, há outros que nunca imaginámos conseguir fazer, este é um deles.
o joão da calada, amigo de há quase 30 anos, veste bem a alcunha da família, é difícil ouvi-lo falar para uma gravação ou deixar-se fixar numa fotografia. a forma como acedeu a ser filmado é, por si só, outro filme.
foi o arrais da primeira companha que acompanhei, é o meu consultor quando tenho dúvidas – nunca deixou de atender o telefone e dar-me o esclarecimento que pretendia.
é o meu arrais e …. desta vez deixou-me fazer o filme possível e as fotos que nunca pensei conseguir fazer. não são os ideais, mas para mim, são um abraço, o maior abraço que o meu arrais me deu.
bem hajas joão da calada.
(torreira; 13 de junho de 2017)