dos conhecidos

chamam-lhe recachia
há os do não
há os do sim
há os do talvez
teme os últimos

há recachia na ria
(torreira; regata da ria; 2010)
dos conhecidos

chamam-lhe recachia
há os do não
há os do sim
há os do talvez
teme os últimos

há recachia na ria
(torreira; regata da ria; 2010)
ser feliz aqui

caminho pelo olhar
e sonho
ignoro o por detrás
e fico-me
pela superfície vazia
onde tudo
pode ser o que eu
quiser
despedi da paisagem
o ruído
das gentes e seus dramas
esqueci
o indesejável saber da
injustiça
inventei ser feliz aqui

(torreira; porto de pesca)
aparelhar da mão de barca

e não são de cânhamo estas cordas
o massa e o bruno colocam um rolo de corda da mão de barca dentro do barco.
a cala da mão de barca fica debaixo do paneiro da proa até ao traste da proa

encontram-se as mãos no esforço, a companha é isso mesmo
(torreira; companha do marco; 2009)
a história não é estória

longe e perto
tenho o tamanho
que tenho
nem mais nem menos
saber o meu tamanho
é saber de mim
é essa a minha grandeza
não te temo por maior
que grande é o vendaval
e passa e morre e foi
digo-te que se quiser
terei o tamanho do tamanho
que tu tens e isso
faz de ti
alguém do meu tamanho
e de mim
um outro muito maior que tu
é com essa ilusão
de falsa grandeza
que do nosso prato
comes sentado à mesa
eu sei que vamos crescer
e papas na tua cabeça
comeremos mais uma vez
a história não é estória

é na meta que se vê o tamanho
(torreira; regata do s. paio; 2014)
parabéns amélia

o silêncio ouve-se
um alarme soou
no telemóvel
a minha memória
depende dele
mas
hoje não te telefono
sei que não atendes
não atenderás mais
escrevo-te
ouço-te vejo-te
resistes
com a energia
que só tu
“por favor
não me ponham de baixa”
não
não foste tu que desististe
tu nunca desististe de nada
foi a vida que desistiu de ti
parabéns amélia
quero que saibam
que hoje fazes anos

um postal para a amélia
(torreira)
muleta, mão de barca, regeira

anda areia no ar junto com poalha de água
recordando
quando os barcos eram “empurrados” por uma muleta como a que se vê nesta foto, o barco era mantido na perpendicular à praia, com a ajuda de duas cordas:
– a mão de barca, cala do aparelho que ficava em terra, que o arrais amarrava à bica da ré e ia largando conforme as possibilidades e as necessidades
– a regeira, corda presa ao golfião de bombordo da proa e que estava preso a um bordão enterrado na praia e da responsabilidade de um camarada da companha (enquanto foi vivo e lá trabalhou, era o ti antónio neto que o fazia)
a terceira corda que se vê na foto é a que está amarrada à muleta, para quando o arrais a soltar poder ser recuperada para terra.
vê-se areia por todo o lado porque o motor está a trabalhar e quando a onda recuou deixou-o em seco e o barco não largou como era de esperar.

a cores as cordas são bem visíveis
(torreira; companha do marco; 2009)

o arrais marco mostra como é velejar um moliceiro
a arte de velejar um moliceiro

um barco lindo que teve de ser vendido e que anda pelos canais de aveiro mutilado e maltratado
(murtosa; regata do bico; 2007)
márcia evaristo (arrais da ria)

tem carta de arrais e é camarada do tio quim nas artes da ria.
neste registo está a safar as redes, enquanto no rosto exibe ainda a maquilhagem que os chocos deixam nos rostos de quem os apanha.
são assim as pescadoras da ria

(ria de aveiro; torreira; 2011)
o meu amigo luciano

um dos momentos mais arriscados para os pescadores de terra, é o prender dos ganchos nos arganéis do barco, no momento de arribar.
ou quando já com o barco no mar é preciso trazê-lo de novo para terra e esperar por nova oportunidade.
neste registo qualquer uma dessas situações pode estar a acontecer, se o arrais tiver decidido arribar de popa.
tractores, arrais, pescadores de terra e mar, têm de ter em atenção não só as ondas, como a possibilidade de um movimento lateral do barco lhes esmagar as pernas.
o luciano, não grita por medo, grita para orientar o tractor, provavelmente para lhe dizer que está preso o gancho porque é responsável e que puxe o barco para a praia.

(torreira; companha do marco; 2009).
retrato com moliceiro em fundo

calam-se
existem não são
estão mas
sorriem muito
a todos
amanhã
serão lembrados
no registo
não na memória
dos seus
piquenos que são

(torreira; regata da ria; 2010)