é
é no tempo
que o homem
se desnuda
sê paciente

tiago capelo
(torreira; cirandar; 2016)
é
é no tempo
que o homem
se desnuda
sê paciente

tiago capelo
(torreira; cirandar; 2016)
quando

quando amanhã
for ontem
quando tu tiveres
sido
sem nada seres
nada restará de ti
a não ser o nada
que foste

(torreira; s. paio; 2017)
a pancada

será forte a pancada
de mar
respeito os homens
no barco
digo-te que maior
a dor
se em vez de mar for
de homem
a pancada

(torreira; 2013)
revisitar
revisitar o ontem
com os olhos de hoje
não é reescrever
o passado
mas sim relê-lo
começar a viagem
pelo fim
é privilégio do tempo
lavo os olhos
na espuma do mar
e ardem-me
estranho seria se não

recriação da xávega com bois
(espinho; 2012)
conheço
conheço muitos
ladrões do presente
assassinos de futuros
mas
ainda não encontrei
ladrões de passados
talvez por isso
ainda tenha o meu

(torreira; safar das redes; 2013)
por vezes dói
habito
o meu tempo
e sou
por vezes dói
recuso-me
a não ser
recuso-me
por vezes dói
eu sou eu
mesmo se
por vezes dói

(armazéns de lavos; enfeitar; 2017)
essencial
essencial a corda
as mãos
tu nelas inteiro
essenciais as mãos
a corda
tu nelas sempre
essencial tu
fazedor de

(costa de lavos; 2017)
fosse eu árvore

olho para o chão
apanho uma folha
uma árvore pariu
um poema

(torreira; regata da ria; 2009)

porque não sou deus
(deus escreve direito
por linhas tortas
diz o povo)
porque não sou
deus
tento sempre
escrever a direito
e sai-me quase
tudo torto

(torreira; 2012)
como se
como se dança
os corpos
como se música
os sons
como se agora
o antes
como se aqui
o longe
nada mais falso
que o óbvio

safar redes é trabalho de casal
(torreira; safar redes; 2013)