a austeridade na terceira idade
é preciso salvar o país
ouviu
fez as contas à vida
e perguntou-se
quem me salva a mim
mas era tarde para fugir

(morraceira; enfeitar; 2016)
a austeridade na terceira idade
é preciso salvar o país
ouviu
fez as contas à vida
e perguntou-se
quem me salva a mim
mas era tarde para fugir

(morraceira; enfeitar; 2016)
ser sem o outro
por dentro dos dias
sempre por dentro dos dias
abrir os braços aceitar
aprender com o tempo
saber cortar
o que de podre nele
numa outra mão os dedos
prendem o que de são
o esquecimento chega
como se uma manhã súbita
não és outro
és sem o outro

(torreira; remendar rede)
a arte da fuga
a arte da fuga
não é exclusiva
de banqueiros
que o digam
os homens e as mulheres
do mar
a diferença
é que os primeiros fogem
com o que é dos outros
os segundos para salvar
o que de pouco têm
a vida e a roupa do corpo

(torreira; arribar; 2016)
pode ser o fim de

depois dos homens
muito depois
ficarão os destroços
memórias limpas
de ter havido gente
que fez barcos e filhos
pescou e disso viveu
procurarão então
rostos e histórias
mas será tarde
como sempre
quando ser de hoje
não é ser os seus
não estarás cá
para ouvir os lamentos
nem isso vales

(algures na ria de aveiro; num tempo a haver)
sal do mar
no primeiro dia do ano
seja do mar o sal
tempero dos dias a vir
sol que nos espera
sal do mar sol à mesa

(morraceira; rer; 2017)
2018 na ti rosa

ti rosa de avanca
há quem encha
os olhos de mar
e por isso exista
há quem traga
o mar nos olhos
e isso lhe baste
é a ti rosa
sento-me num banco
encontro amigos
trocam-se cervejas
uma garrafa de água
não me esqueço de ti massa
voam conversas jornais
cartas e dominó
na ti rosa
há mar em terra
e uma figueira
na ti rosa em 2018
tá combinado

ti rosa de avanca
(torreira; à porta da ti rosa de avanca)
vou por aí
não conto os dias
foram são serão
sempre dias
conto risos e lágrimas
por chorar
os que se lavam em lágrimas
não imaginam como é
ficar sujo por falta delas
conto as mãos
as dadas as negadas
as que nunca e as que sempre
as do engano também
conto sonhos e desilusões
amigos que morreram
e outros que partiram
sem morrer
conto-me como coisa outra
um eu dentro de mim
revisito-me para me ver melhor
sinto que algures fui
hoje como sempre
vou por aí
sim amigo poeta
vou por aí
enquanto puder
vou por aí
vou por aí

(por aí; ao pé do mar; num ano qualquer)
não é fácil
escrevo a direito
por isso recebo tantas
respostas tortas

quando a companha é a família
(torreira; cirandar; 2016)
sonho
que me lembrem
pelo que fiz
não pelo que fui

aparelhar
(torreira; 2016)
essencial o homem

o moliceiro “Dos Netos”
por sobre o espelho
da ria o moliceiro
desliza à força da vara
em dias sem vento
ou de passagem de modelos
de nada serve a vela
fica o mastro a falar dela
essencial o homem
é a força de ser ainda o barco
a bandeira erguida
de uma terra que se busca
num tempo onde ainda não se sabe
se perdida por falta de raízes
numa suposta ria encanada
na cidade
há uns barcos que se fazem
passar por
essencial o homem
desmente-os

o moliceiro “Dos Netos”
(torreira; regata do s. paio; 2010)