postais da ria (235)


pode ser o fim de

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depois dos homens
muito depois
ficarão os destroços

memórias limpas
de ter havido gente
que fez barcos e filhos
pescou e disso viveu

procurarão então
rostos e histórias
mas será tarde

como sempre
quando ser de hoje
não é ser os seus

não estarás cá
para ouvir os lamentos
nem isso vales

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(algures na ria de aveiro; num tempo a haver)

2018 na ti rosa


2018 na ti rosa

000 ahcravo_ DSC_1165 s bw_rosa de avanca

ti rosa de avanca

há quem encha
os olhos de mar
e por isso exista

há quem traga
o mar nos olhos
e isso lhe baste
é a ti rosa

sento-me num banco
encontro amigos
trocam-se cervejas
uma garrafa de água
não me esqueço de ti massa
voam conversas jornais
cartas e dominó

na ti rosa
há mar em terra
e uma figueira

na ti rosa em 2018
tá combinado

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ti rosa de avanca

(torreira; à porta da ti rosa de avanca)

mãos de mar (39)


vou por aí

não conto os dias
foram são serão
sempre dias

conto risos e lágrimas
por chorar

os que se lavam em lágrimas
não imaginam como é
ficar sujo por falta delas

conto as mãos
as dadas as negadas
as que nunca e as que sempre
as do engano também

conto sonhos e desilusões
amigos que morreram
e outros que partiram
sem morrer

conto-me como coisa outra
um eu dentro de mim
revisito-me para me ver melhor
sinto que algures fui

hoje como sempre
vou por aí
sim amigo poeta
vou por aí

enquanto puder
vou por aí

vou por aí

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(por aí; ao pé do mar; num ano qualquer)

os moliceiros têm vela (290)


essencial o homem

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o moliceiro “Dos Netos”

por sobre o espelho
da ria o moliceiro
desliza à força da vara

em dias sem vento
ou de passagem de modelos
de nada serve a vela
fica o mastro a falar dela

essencial o homem
é a força de ser ainda o barco
a bandeira erguida

de uma terra que se busca
num tempo onde ainda não se sabe
se perdida por falta de raízes

numa suposta ria encanada
na cidade
há uns barcos que se fazem
passar por

essencial o homem
desmente-os

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o moliceiro “Dos Netos”

(torreira; regata do s. paio; 2010)