do sal digo
o mar à tua mesa
dá outro sabor
aos frutos da terra

(armazéns de lavos; 2017)
do sal digo
o mar à tua mesa
dá outro sabor
aos frutos da terra

(armazéns de lavos; 2017)
em louvor da música

os sons
são a paisagem
dos cegos

(torreira; regata do s. paio, 2014)
a lágrima
lembro-me do antes
imaginei um depois
mas é agora
que a lágrima cai

(torreira; 2016)
a ignorância do sábio
o sábio
cultiva a ignorância
com rigor

(corrida de chinchorros; s. paio, 2016)
é fácil

o carregar do saco
se te perguntarem por mim
diz que não estou
é verdade
se perguntarem porquê
diz que não sabes
é meia verdade
se te fizerem mais perguntas
diz que tens de fazer
é fácil

o carregar do saco
(torreira; 2010)
achega

achegar
fácil julgar o ontem
com os olhos de hoje
tão fácil que até tu
de juiz te vestes
papagaio
(morraceira, salina dos doutores; 2017)
dos sábios e da sabedoria

sábios os que não falam
porque não erram
sábios os que nada fazem
porque ninguém lhes critica a obra
mais sábia a estátua
onde poisam pombas
que lhe cagam em cima

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)
8 de novembro de 2017
um homem enorme
uma obra colossal
o sentir tudo e por tudo a ternura de um olhar
a tortura permanente de uma guerra
único, admirável, solidário, sobrevivente, amigo
escritor porque sim
porque os livros o chamam
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
espero-me

no refazer dos dias
não se refaz o sonho
a rede que fiz
afoguei-me nela
do mar trouxe pedras
quando outros peixe
fui pescador sem o ser
corri muito para nada
cansado de tanto
vou ser eu onde
espero-me mais além
(torreira; 2016)