a escrita dos dias

reter
os gestos os rostos
as fainas os falares
as pegadas os rastos
não os meus não
por entre os dedos
o norte corre
a memória com ele
ficam as palavras
as imagens
um tempo descrito

(regata da ria; 2010)

a escrita dos dias

reter
os gestos os rostos
as fainas os falares
as pegadas os rastos
não os meus não
por entre os dedos
o norte corre
a memória com ele
ficam as palavras
as imagens
um tempo descrito

(regata da ria; 2010)

desafio ao moliceiro

o baralho é velho
as cartas marcadas
os jogadores combinados
mas
sem ti não há jogo
se ele continua
a culpa é só tua
moliceiro

(recachia; regata da ria; 2010)
em louvor da música

os sons
são a paisagem
dos cegos

(torreira; regata do s. paio, 2014)
dos sábios e da sabedoria

sábios os que não falam
porque não erram
sábios os que nada fazem
porque ninguém lhes critica a obra
mais sábia a estátua
onde poisam pombas
que lhe cagam em cima

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)
carta aos resistentes

não se darem as mãos
não serem um
habitado por muitos
admiro que ainda
perguntas-me como
só encontro uma palavra
amor
assim a terra
o entendesse
não se darem as mãos
não serem um
habitado por muitos
não é sonho
é viver ou morrer

(regata do bico; 2017)

sonharei sempre

sonharei sempre
de olhos abertos
atento às palavras
recuso-me a ser
o que cala e aceita
sem questionar
também o sol
que aquece e ilumina
projecta sombra
que dizer da lua
e das suas duas faces
sonharei sempre
de olhos atentos
questionarei
deixo as certezas
para os treinadores
de bancada
levo comigo a dúvida
companheira amiga
na busca de saber
sonharei sempre

o “A. Rendeiro” com o ti zé rebeço e manel antão
(torreira; regata do s. paio; 2015)
eu tenho um sonho

como os barcos
assim fossem os homens
não os que neles
que maiores ainda são
dessem-se as mãos
as vontades os quereres
fizessem-se actos
as palavras ditas semeadas
esparsas solitárias
soubessem-se moliceiros
todos
diriam em voz de se ouvir
“somos esta terra
a sua memória o seu futuro
merecemos mais”

(murtosa; regata do bico; 2017)

a porta está aberta

nos braços a força
na vela a bandeira
na vontade o ainda
moliceiro sinto-o assim
branco e negro
belo em risco
à janela há
quem espreite
que entre
a porta está aberta

(torreira; s. paio; 2017)